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Mostrando postagens de 2025

A cabeça do santo, de Socorro Acioli

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  "Quando se virou para observar o lugar onde estava, com a ajuda da pouca luz do sol encoberto, Samuel percebeu que a gruta onde passou a noite era, na verdade, uma cabeça gigante, oca e assustadora. Uma cabeça de santo."     O realismo mágico sempre tem seus jeitos especiais de entrar no coração de um latino. Pois com esse livro não é diferente. Aquilo que Gabriel García Marquez ensinou para Socorro Acioli na oficina "Como contar um conto" se vê trabalhado com maestria nessa história. O realismo mágico tem algo muito especial e diferente de qualquer outro gênero que trabalha com os limites da realidade, que é justamente o fato de ser sempre muito divertido. E acredito que Acioli saiba muito bem como trazer esse elemento para essa história, que parece, a princípio, ser tão tensa e difícil.     Além disso, acho que muitos livros são construídos com a intenção de serem adaptados ao cinema, e um leitor experiente pode ser muito capaz de ver esses traços em qualque...

Katábasis, de R. F. Kuang

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  "Magia, a mais misteriosa e caprichosa das disciplinas, admirada por seu poder e ridicularizada por sua frivolidade, é, em resumo, o ato de contar mentiras sobre o mundo."     Se você acompanha este blog desde a primeira resenha, você sabe que eu levo a R. F. Kuang muito a sério. O primeiro livro que li dela, A guerra da papoula , me tirou de helicóptero de uma ressaca literária intensa. O segundo que li, Babel , tem sido minha recomendação coringa para qualquer pessoa desde antes mesmo de eu terminá-lo. Cheguei até a emprestar para um aluno, que ficou igualmente impactado pela história. Li também Impostora , que também resenhei este ano. E agora acabei seu lançamento mais recente, Katábasis .     Para quem não sabe, assim como eu antes de ler, o substantivo grego katábasis  significa "a descida de um herói ao submundo". E logo eu, que não sou estranha a Dante Alighieri, fico sempre intrigada por uma boa viagem ao inferno. Viagem essa que, neste livro, se...

Frida Kahlo e as cores da vida, de Caroline Bernard

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"Essas são as duas mulheres que tenho dentro de mim, pensou, enquanto continuava a pincelar a tela de branco. A mulher que quer viver do jeito que lhe convém e a mulher que carrega a carga da tradição e da história."     Quem gosta de julgar um livro pela capa? Pois bem, se você olhar para essa capa toda linda, colorida e cheia de detalhes, deve sentir a maior vontade de ler esse livro. Comigo foi assim, ainda mais quando vi que era a biografia de Frida Kahlo. Mas, como bem pode-se esperar de um livro sobre uma mulher mexicana escrito por uma alemã, não foi bem uma obra prima.     A história de Frida é muito intensa. Logo cedo, aos 6 anos, foi acometida por uma poliomielite, que a deixou com dores crônicas. Aos 18 anos, sofreu um gravíssimo acidente de ônibus no qual seu ventre foi atravessado por uma barra de metal. Por conta desse acidente, passou muitos meses hospitalizada e, mesmo ao receber alta, teve de ficar anos acamada usando um colete de gesso até se recupe...

Três, de Valérie Perrin

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  "Nina era o elo que unia os dois. Sem ela, Adrien e Étienne não se encontravam. Eram três, ou nada."     Há muito tempo, Três  estava na minha lista de leituras. Em qualquer vídeo de recomendação de livros contemporâneos, pode ter certeza que este vai estar lá recomendado e extremamente elogiado por leitores de todo o mundo. Por isso, quando comecei a ler, finalmente, minhas expectativas estavam bem altas. E então você pode pensar que é a pior receita para ler qualquer coisa.     Começamos conhecendo essas três crianças, Nina, Étienne e Adrien, colegas de classe que, por uma sorte do destino, acabam se conhecendo e se tornando amigos. A partir daí, os três são inseparáveis, vivem toda sua infância e adolescência juntos até que a vida os acaba separando. A narração é confusa a princípio porque ela transita entre uma narradora misteriosa em 1ª pessoa, Virginie, que se passa no presente (2018, nem tão presente assim), e uma narração em 3ª pessoa, que acompan...

A paixão segundo G.H., de Clarice Lispector

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  "(...) se eu for adiante nas minhas visões fragmentárias, o mundo inteiro terá que se transformar para eu caber nele."     É notório de ler Clarice Lispector é uma atividade difícil. E é igualmente notório que ler Clarice Lispector não convida críticas ou avaliações. Um livro como este não é como qualquer outro, ele não se preocupa em se organizar para caber em você, leitor, nem em lógicas idealizadas de uma literatura convencional. Para ler Clarice, é preciso, como ela diz, ser uma "pessoa de alma já formada". Seja lá o que isso signifique.     O enredo desse livro pouco importa, ele some ao longo da leitura e reaparece de vez em quando para nos lembrar que havia uma pequena lógica por traz de algo nesse mundo, mas essa lógica se desmancha diante de nós quando tentamos observá-la de perto, agarrá-la, fazer dela objeto. G. H., mulher rica, artista, em um dia qualquer, após demitir sua empregada Janair, decide limpar o fatídico quarto da empregada  em sua ...

"Caminho de pedras" e a frustração da traição

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 [ESTA RESENHA CONTÉM SPOILERS!] [mas também... o livro tem 88 anos, né?] "- Pensou que eu tinha mão de moça rica? Filipe procurou consolá-la com uma brincadeira: - Ora, diz que o mundo do futuro há de ser feito com as mãos assim..."     Um pouco de contexto sobre essa autora tão... confusa.     Rachel de Queiroz foi presa pela Ditadura Vargas, no ano que se inaugura essa página obscura de nossa história. Sua prisão aconteceu dia 28 de outubro de 1937, e foi durante os dois anos de cárcere que ela escreveu Caminho de Pedras . Isso tudo é importante porque a Rachel de Queiroz que lemos aqui não é a Rachel de Queiroz que morreu em 2003. É difícil saber a linha do tempo exata, mas a autora que escreveu este livro era recém ex-membra do Partido Comunista do Brasil e socialista libertária que havia visto seus livros serem queimados por um governo autoritário de cunho anti-comunista.     Então, ao escrever esse livro, Rachel deposita brilhantemente suas crít...

No seu pescoço, de Chimamanda Ngozi Adichie

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  "Não vou à igreja; parei de ir depois da primeira visita de Ebere, porque não tinha mais incertezas. É nossa desconfiança com a vida após a morte que nos leva à religião. Por isso, aos domingos, eu me sento na varanda, observo os abutres pisando no meu telhado e imagino que eles estão me espiando, intrigados."     A literatura de Chimamanda Adichie nunca passa por mim sem deixar seus rastros. Da primeira vez que li um livro dela, Americanah , fiquei tão impactada por seu jeito quase artesanal de fazer literatura que até hoje encontro seus vestígios em outras experiências literárias. Quando menos espero, em livros de tantos outros temas, enredos e formas de narração, encontro ali aquela memória literária de quando, aos 20 anos, tive o prazer de conhecer sua escrita.     No seu pescoço  é uma coletânea de 12 contos que abordam assuntos diversos, sempre por uma perspectiva de personagens nigerianos tomados por algum evento que os faz encarar suas próprias hi...

Persépolis, de Marjane Satrapi

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  "Claro que, mesmo com todas essas ameaças, as festas continuavam. Alguns diziam: 'Para poder suportar psicologicamente...', e outros completavam: 'Sem festa, pode encomendar nossos caixões'."     Persépolis é o nome que se deu à Cidade Persa ainda na antiguidade. Hoje, as ruínas desse lugar são consideradas patrimônio mundial pela UNESCO e simbolizam um poderoso registro histórico da antiga Pérsia, atual Irã. Mas a história de Marjane Satrapi acontece em anos muito mais recentes com a guerra entre Irã e Iraque, iniciada nos anos 1980, nesse mesmo cenário de ruínas e conflitos.     Através de uma belíssima história em quadrinhos, Marjane relata como sua vida mudou quando um governo autoritário teocrático tomou conta de seu país, Irã, e passou a ditar exatamente como as pessoas deveriam viver suas vidas. As mulheres, que até então se vestiam como queriam, se viram obrigadas a usarem véus e até chador  , uma roupa que cobre completamente seu corpo e deixa vi...

As Meninas, de Lygia Fagundes Telles

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  "Para que eu seja assim inteira (essencial e essência) é preciso que não esteja em outro lugar senão em mim."     As Meninas  é um sufoco. Quando li pela primeira vez era pandemia, li com minhas amigas em um clube do livro e precisei da primeira reunião para entender que as narradoras eram três pessoas diferentes. Agora, nessa releitura, vejo o quanto esse livro me marcou e, ao mesmo tempo, o quanto perdi dele na primeira vez. Percebo, agora, que esse livro é um livro de estante, um para ter guardado por toda sua vida e para ser revisitado de tempos em tempos. É um livro para ir saboreando com os anos, degustando, decantando. Parece que, à medida em que eu amadureço, o livro amadurece junto.     Lygia Fagundes Telles é uma joia rara que temos o prazer de ler em sua língua original. Em um país que tem Machado de Assis, Jorge Amado e Clarice Lispector, parece inacreditável que tenhamos ganhado em tantas loterias literárias a ponto de termos também a Lygia. ...

Yellowface, de R. F. Kuang

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  "It's hard, after all, to be friends with someone who outshines you at every turn." [SPOILERS MÍNIMOS ABAIXO]     Até que ponto uma criação é realmente original?     Essa é a pergunta que paira ao longo de toda a narrativa de Yellowface . Mais uma vez Kuang conseguiu me conquistar desde as primeiras linhas, mas, dessa vez, com uma narrativa completamente diferente de suas outras. Nessa história, as linhas éticas entre roubo e inspiração se borram fortemente e nos fazem pensar se realmente é possível criar algo original.     June Hayward é a anti-heroína e narradora desse livro. Ela nos conta desde o princípio que nunca pretendia se tornar uma ladra, mas cá estamos. Uma autora fracassada de formação acadêmica séria e promissora narra todos os acontecimentos que levaram à morte de sua grande amiga e escritora super-mega-hiper-bem-sucedida, Athena Liu. Uma morte surpreendente que acontece bem na sua (e na nossa) frente. Uma morte tão assustadora que lev...

Anarquistas, graças a Deus, de Zélia Gattai

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  "Nossa vida simples era rica, alegre e sadia. A imaginação voando solta, transformando tudo em festa, nenhuma barreira a impedir meus sonhos, o riso aberto e franco. Os divertimentos, como já disse, eram poucos, porém suficientes para encher o nosso mundo."     Não é difícil se apaixonar por Zélia Gattai. Desde que visitei sua casa em Salvador e conheci uma parte tão íntima de sua vida, me fascinei por quem ela era e por sua relação tão linda com Jorge Amado. Mas acontece que eu nunca havia lido nenhum de seus livros. E, agora que li Anarquistas, graças a Deus , posso dizer que toda minha paixão por ela era tão pouca perto do que se tornou.     O livro conta a história de sua família italiana anarquista nos anos 1920 em São Paulo. Filha de Ernesto e Angelina, pais rígidos e amorosos, de convicções políticas fortes, Zélia é a caçula de cinco irmãos, Remo, Wanda, Vera e Tito. Sua família morava na Alameda Santos nº 8 e, naquela casa, Zélia viveu toda sua infânci...

Gabriela, cravo e canela, de Jorge Amado

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  "Tudo que é bom, tudo que é ruim, também termina por acabar."     Aos desavisados, Gabriela, cravo e canela  não é uma história de amor. Sinto dizer, sinto frustrar os românticos de plantão, mas esse livro é muito mais do que a história de Nacib e Gabriela. E, mesmo assim, é impossível ler e não se deixar levar pelo caso de amor que acomete esses personagens tão apaixonantes.     Esse livro, assim como qualquer obra de Jorge Amado, é um retrato preciso de um lugar específico em uma época específica - Ilhéus nos anos 1920 - ao mesmo tempo em que é uma obra atemporal e universal. Dominada por uma dinâmica política envelhecida de coronelismo e plantio de cacau, a cidade de Ilhéus é o cenário de inúmeras histórias de amor, inclusive a de Nacib e Gabriela, em meio a disputas políticas acirradas, à medida que também enfrenta os efeitos da modernização e das mudanças de pensamento do novo século. Nacib, nosso protagonista, é o dono do bar Vesúvio, onde se reúnem...

Memórias de Martha, de Julia Lopes de Almeida

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  "Há flores nos pântanos, e refletem-se muitas vezes na lama os raios das estrelas." [Essa resenha contém SPOILERS]     Ano passado, em plena movimentação de pré-vestibular, os preparativos a todo vapor, a Fuvest lançou a sua lista de leituras obrigatórias para o vestibular de 2026¹ e, para a surpresa de todos, revelou um feito inédito: uma lista composta apenas de mulheres. Esse feito foi completamente inovador e nos mostrou uma comprovação daquilo que nós, feministas, sabemos há muito tempo: as mulheres sempre foram plenamente capazes de fazer parte da produção intelectual, artística e literária, e sempre o fizeram, mesmo que às escondidas. O que aconteceu, ao longo do cruel curso da história, foi o apagamento de suas inúmeras contribuições. O vestibular da Fuvest, em um movimento de resgate histórico, dá um espaço de notoriedade àquelas apagadas pela história. Em listas que, por anos, foram compostas de apenas homens, homens e mais homens, vemos uma luz no que diz res...

A Vegetariana, de Han Kang

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  "'Você tem cheiro.' 'Cheiro de quê?' 'Carne. Seu corpo cheira a carne.' Dei uma sonora gargalhada. 'Você não viu que acabei de sair do banho? De onde você pode sentir esse cheiro em mim?' Sua resposta foi cortante. 'De todos os seus poros.'"     O segundo livro ganhador de Prêmio Nobel de Literatura que eu li esse ano, primeiro Nobel da Coréia do Sul. Li consideravelmente depois de sua fama maior, que acredito que tenha sido em torno de 2020 (foi quando ouvi falar dele pela primeira vez através de minha amiga Aline). Também li depois de minha madrinha, que foi quem me presenteou o livro em 2021 (eu tardo, mas não falho). Também li depois de minha mãe, que leu no começo desse ano, assim que foi laureado, e depois do meu irmão, que leu com os amigos em um clube do livro. Ou seja, minha sensação é de que eu fui a última pessoa do mundo a ler esse livro. E que demora...     A história dele não é exatamente o seu ponto mais especial, nem t...