No seu pescoço, de Chimamanda Ngozi Adichie

 


"Não vou à igreja; parei de ir depois da primeira visita de Ebere, porque não tinha mais incertezas. É nossa desconfiança com a vida após a morte que nos leva à religião. Por isso, aos domingos, eu me sento na varanda, observo os abutres pisando no meu telhado e imagino que eles estão me espiando, intrigados."

    A literatura de Chimamanda Adichie nunca passa por mim sem deixar seus rastros. Da primeira vez que li um livro dela, Americanah, fiquei tão impactada por seu jeito quase artesanal de fazer literatura que até hoje encontro seus vestígios em outras experiências literárias. Quando menos espero, em livros de tantos outros temas, enredos e formas de narração, encontro ali aquela memória literária de quando, aos 20 anos, tive o prazer de conhecer sua escrita.
    No seu pescoço é uma coletânea de 12 contos que abordam assuntos diversos, sempre por uma perspectiva de personagens nigerianos tomados por algum evento que os faz encarar suas próprias histórias. Um livro que tão facilmente transporta o leitor para os lugares da narrativa, mas que, com igual facilidade, chacoalha a realidade e bagunça todos os móveis de sua casa. Cada conto, de sua forma, constrói um universo particular e intimista ao qual você é convidado a entrar, observar e refletir a respeito, mas também te incomoda, te faz deparar com choques culturais e ideias que não são as suas (e nem precisam ser).

"À noite, algo se enroscava no seu pescoço, algo que por muito pouco não lhe sufocava antes de você cair no sono."

    Cada um dos contos desse livro traz uma história singular sobre a vida de uma pessoa (ou mais de uma) nigeriana. Em muitos deles, mulheres casadas com homens ricos vão para os EUA para alcançarem a tal vida melhor que era prometida para eles ali, até chegarem no país estranho e encontrarem nada menos que suas raízes refletidas em cada espelho daquele lugar. Em alguns dos contos, são mulheres independentes e bem-sucedidas que chegam ao país ianque para trabalhar, estudar e realizar seus desejos, e constroem suas próprias vidas ali. Alguns contos se passam na Nigéria, em diversas cidades, com retratos de uma cultura ao mesmo tempo desconhecida e tão familiar. Alguns contos retratam o casamento como uma instituição incômoda, antiquada, responsável por prender as mulheres em dinâmicas abusivas e misóginas de família. Em outros, o casamento é o passo natural do amor. Alguns contos tocam em temas como racismo, violência, corrpução, censura, imperialismo, religião, cultura e etnia. Mas todos são muito mais do que parecem ser.
    O que há em comum entre todos os contos é a forma como eles te levam em uma viagem aparentemente tão fácil e universal para a vida dessas pessoas que você nem conhece, só para te mostrar que, na verdade, elas são tão iguais a nós quanto qualquer outra pessoa, e ao mesmo tempo tão diferentes também. E, no final, quando chega a hora de revelar aquele acontecimento que você tanto antecipa ao longo da narrativa, o conto acaba em um suspiro preso no seu pescoço. Talvez o nome tenha a ver com isso. Talvez seja a sensação de algo entalado ali dentro de nós, que vai se somando a tantos outros suspiros presos até nos sufocar completamente, ou até, em uma terça-feira à tarde qualquer, soltarem-se de nossos pulmões sem a menor cerimônia. Em vez de um desfecho grandioso, que te permite expirar com força e relaxar seus ombros, ou até mesmo um desfecho angustiante, que solta o ar de seus pulmões em um choro doloroso, os finais são sempre... inacabados.
    Não digo isso como uma crítica, até porque acho que esse é o maior dom de Chimamanda. Digo mais como um elogio, como uma observação de que a vida realmente se parece com esses finais. O livro replica muito bem o eterno sentimento de estar em suspensão, sem completude, sem um final. Nós entramos nas vidas dessas pessoas desconhecidas, observamos suas realidades por 10, 15, 20 páginas e, quando menos esperamos, somos empurrados para fora da casa antes de comer um pedaço daquele bolo bonito que vimos na geladeira de solsaio enquanto o chá era servido. E fazer o quê? Seguimos...

"Aquilo que se enroscava ao redor do seu pescoço, que quase sufocava você antes de dormir, começou a afrouxar, a se soltar."

    Os contos que mais me impactaram foram Uma experiência privada, que parece ser uma exemplificação muito honesta do que Chimamanda sempre discute a respeito do Perigo da história única. É um conto muito angustiante e marcante sobre duas mulheres que se refugiam em uma loja durante um conflito armado que acontece na rua em que estavam. As duas mulheres, de origens e realidades diferentes, convivem por algumas horas e constroem, naquele espaço confinado e repleto de tensão e medo, uma relação de intimidade, proximidade e afeto que faz com que a protagonista, Chika, reveja toda sua interpretação do mundo ao seu redor.
    Em segundo lugar, Jumping Monkey Hill é um conto que parece tão óbvio ao mesmo tempo que é chocante. Uma escritora vai a uma oficina de escrita em um resort que dá nome ao conto. Junto a ela, um grupo de escritores de diversos países africanos (alguns que vivem em países europeus ou nos EUA) se reúnem para construírem contos e fazerem críticas e elogios uns aos outros. Esse conto narra atitudes de racismo velado, uma dinâmica de violência de gênero e os conflitos individuais das pessoas diante dessas situações. O desfecho é, ao mesmo tempo, satisfatório e incômodo.
    Por fim, O tremor é uma história de amor que não é romântica. É uma história de um encontro inesperado que forma uma amizade com base naquilo que os estrangeiros de uma mesma origem têm em comum. Duas pessoas nigerianas se unem em uma amizade nos EUA por conta de uma tragédia que acontece em seu país, e, por conta desse evento, se vêem conectadas não apenas por essa dor compartilhada, mas por encontrarem estranhos tão familiares no absurdo da existência.
    Selecionei esses três contos não porque são os melhores, mas porque acredito que nunca os esquecerei. Assim como com Americanah, para o resto de minhas experiências literárias, terei comigo essa coisa no meu pescoço. E que bom.

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