A cabeça do santo, de Socorro Acioli
"Quando se virou para observar o lugar onde estava, com a ajuda da pouca luz do sol encoberto, Samuel percebeu que a gruta onde passou a noite era, na verdade, uma cabeça gigante, oca e assustadora. Uma cabeça de santo."
O realismo mágico sempre tem seus jeitos especiais de entrar no coração de um latino. Pois com esse livro não é diferente. Aquilo que Gabriel García Marquez ensinou para Socorro Acioli na oficina "Como contar um conto" se vê trabalhado com maestria nessa história. O realismo mágico tem algo muito especial e diferente de qualquer outro gênero que trabalha com os limites da realidade, que é justamente o fato de ser sempre muito divertido. E acredito que Acioli saiba muito bem como trazer esse elemento para essa história, que parece, a princípio, ser tão tensa e difícil.
Além disso, acho que muitos livros são construídos com a intenção de serem adaptados ao cinema, e um leitor experiente pode ser muito capaz de ver esses traços em qualquer livro. Não digo que isso seja um defeito, mas acho que tem algo de particular à linguagem literária que muitas vezes se perde quando um livro é escrito com o objetivo de virar cinema. Não é o caso de A cabeça do santo, apesar de uma escrita tão visualmente rica, capaz de evocar imagens tão claramente como se estivessem bem diante dos seus olhos. No começo, senti que era um livro-futuro-filme, mas logo percebi que a riqueza literária que só um livro tem também é um dos pontos elogiosos desse livro.
"Era tudo tão lindo que nem coube nos seus pequenos sonhos. Ela precisou aprender a sonhar mais."
Acompanhamos Samuel em uma jornada longa e difícil em busca de seu pai. Sua mãe, Mariinha, recentemente falecida, deixou uma missão ao filho: andar até a casa de sua avó, Niceia, na cidade de Candeia, em busca de seu pai, e acender três velas: uma para o padre Cícero, uma para santo Antônio e outra para são Francisco. O que inicialmente traz ao livro um aspecto denso e com um ar de Vidas Secas logo se dissipa quando Samuel, procurando se abrigar de uma forte chuva, dorme na cabeça de santo Antônio. Ao despertar, o protagonista descobre que, sempre às cinco horas, consegue ouvir as orações destinadas ao santo pela sua cabeça.
Na manhã seguinte, Samuel encontra Francisco, menino danado da cidade que se refugia na cabeça para ler revistas pornográficas. Os dois combinam que, após ouvirem as rezas de tantas mulheres da cidade, tramarão um plano de armar os casamentos das moças em troca de dinheiro. Com essa nova fama de mensageiro do santo casamenteiro, Samuel, Francisco e Aécio (radialista da cidade) montam um esquema de forja de casamentos com base nas rezas que Samuel escuta.
Toda essa história se desenrola em um conjunto de surpresas e reviravoltas que, por mais que um tanto previsíveis, fazem da narrativa um deleite literário. É um daqueles livros que enrola muitos enredos e vai desenrolando cada um com destreza. É muito prazeroso embaçar os limites entre verdade e fantasia em meio a uma religiosidade que flutua no ar. Mesmo que Acioli não tenha intenção alguma de te convencer em acreditar em santos, o poder de sua literatura é te levar em uma jornada levemente fantástica, mas, ao mesmo tempo, intensamente verdadeira.
"- Final, final mesmo, Samuel, é só quando eu baixar teu caixão na cova. Ainda dá tempo.
- Tu sonha muito, Chico.
- Foi a morte que me ensinou. O tempo de sonhar é em cima da terra."
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