Katábasis, de R. F. Kuang

 


"Magia, a mais misteriosa e caprichosa das disciplinas, admirada por seu poder e ridicularizada por sua frivolidade, é, em resumo, o ato de contar mentiras sobre o mundo."

    Se você acompanha este blog desde a primeira resenha, você sabe que eu levo a R. F. Kuang muito a sério. O primeiro livro que li dela, A guerra da papoula, me tirou de helicóptero de uma ressaca literária intensa. O segundo que li, Babel, tem sido minha recomendação coringa para qualquer pessoa desde antes mesmo de eu terminá-lo. Cheguei até a emprestar para um aluno, que ficou igualmente impactado pela história. Li também Impostora, que também resenhei este ano. E agora acabei seu lançamento mais recente, Katábasis.
    Para quem não sabe, assim como eu antes de ler, o substantivo grego katábasis significa "a descida de um herói ao submundo". E logo eu, que não sou estranha a Dante Alighieri, fico sempre intrigada por uma boa viagem ao inferno. Viagem essa que, neste livro, se justifica por uma razão peculiar e até bastante engraçada. Afinal, você iria até o inferno buscar seu orientador? Faria tudo isso em nome de uma bolsa FAPESP?

"No entanto, não tinha hesitado diante da escolha. Preferia se formar, produzir pesquisas brilhantes e morrer em plena glória? Ou viver até o fim de sua expectativa de vida natural, de cabelos grisalhos e babando, relegada à irrelevância, consumida pelo arrependimento?"

    O conflito deste livro reside em uma escolha complexa e arriscada em nome... do estudo? Da formação acadêmica? Pode ser incoerente para qualquer pessoa fora do meio acadêmico, e até mesmo para quem está dentro dele, mas a disputa que Kuang descreve brilhantemente por meio dessa ficção é daquela vozinha eterna na cabeça dos pesquisadores que tanto os convence de que só há glória no meio, e de que estar ali é simplesmente incomparável a não estar. E que as recomepensas valem abrir mão de metade de seu tempo de vida para passar dias zanzando pelo inferno buscando seu orientador que te tratava mal.
    Alice Law, protagonista do livro, é uma mulher decidida, ambiciosa e que sabe muito bem o que quer. Ela não hesita em sacrificar o essencial em nome da ciência (que, na história, é também magia). Alice não faz amigos porque precisa sempre estar em primeiro lugar, não namora porque não consegue despender tempo de pesquisa para coisas tão triviais como os desejos do corpo e do coração. E não consegue manter relação alguma fora do meio acadêmico porque, afinal, eles não entenderiam. Seu desejo é se tornar cada vez maior, mais referencial, mas essencial para a linguística (por que será que eu gosto dos livros da Kuang, hein?), até que ela atinja o ápice de poder e glória permitido pela academia.
    Ao seu lado, seu frenemy, Peter Murdoch, rapaz tão inteligente quanto Alice, mas estudioso da lógica. Sua máxima competição, seu maior inimigo e ao mesmo tempo um amigo e até uma paixão de Alice (spoiler, ok, mas vamos combinar que é meio previsível). Os dois embarcam nessa jornada porque, como ambos são orientados de Jacob Grimes, o maior mago do planeta aparentemente, sabem muito bem que não existe outro caminho que não trazê-lo de volta para completar seus trabalhos de pós-doutorado, escrever belíssimas cartas de recomendação para que eles consigam cargos universitários e dividir com eles a glória de um avanço científico inestimável: trazer alguém de volta à vida.
    Tudo parece perfeito, simplesmente.

"Para Alice, tinha sido mais uma questão de foda-se, nada mais importa, já deu tudo errado, então vamos para o Inferno."

    O que sempre brilha mais nos livros de Kuang é a forma como ela é capaz de construir narrativas intrigantes, surpreendentes e engajantes ao mesmo tempo em que aborda temáticas universais e atemporais. O problema da dualidade entre mente e corpo e a percepção daqueles que prezam apenas pelo desenvolvimento da mente de que o corpo é supérfluo, fútil. E, enquanto pensam assim, se pegam lutando contra as necessidades físicas, carnais e emocionais, como se fossem sujeitos alheios à própria carne.
    Além disso, a forma como ela retrata as relações complexas do meio científico, seja pelos conflitos entre os orientandos, ou pelas disputas de poder entre os próprios professores, ou pela competição velada entre aqueles que aguentam mais sofrimento em nome do progresso científico e se sentem superiores àqueles que não dão conta. Mas o que pareceu para mim a discussão mais bem construída na história são as relações de gênero no meio acadêmico. Alice está longe de ser uma feminista, ela deixa bem claro que não quer ser reconhecida como boa para uma mulher, e sim boa inegavelmente, acima de todos ao seu redor. Mas este conflito vai além do desejo profundo de destruir a dimensão patriarcal das relações interpessoais. O maior talento de Kuang em todos seus livros é retratar literariamente e de maneira quase artesanal a forma como as disputas de gênero são inescapáveis até no aspecto mais íntimo de nossas vidas.
    Por fim, a relação de Alice e Peter com Grimes, seu orientador, é uma peça interessante para a obra. Por vezes parece até um pouco caricata demais a obsessão deles em continuar sob a orientação deste homem tão desprezível, parece que seria impossível alguém se odiar tanto a ponto de continuar nessa relação, mas é justamente por essa caracterização que o livro retrata a complexidade de relacionamentos desproporcionais e abusivos, não somente por uma perspectiva romântica, afinal, este não é o único abuso ao qual alguém pode se sujeitar. E justamente no meio acadêmico é onde parece mais ainda que este tipo de relacionamento é naturalizado e até glorificado, como se o sofrimento resultasse necessariamente em uma vida de glória e sucesso (o que, na verdade, provavelmente significaria apenas uma vida de manutenção do ciclo da violência).

"Se alguém tivesse perguntado por que nunca denunciara o professor Grimes por nenhuma das coisas que ele fez ou disse, Alice teria explicado que não havia o que denunciar, porque a culpa era sua."

    Por fim, o livro que parecia, às vezes, um pouco menos complexo do que Babel acabou me surpreendendo no final. Não vou dar spoilers, mas, se me permitem, um conselho: vá ao livro de coração aberto, pois ela toma riscos que não são fáceis de serem engolidos em qualquer narrativa de fantasia, mas que, na minha opinião, são muito bem construídos e amarrados no enredo.
    E o meu último conselho: se você se encontrar em um cenário em que você está planejando uma viagem ao inferno para buscar seu orientador maluco, reveja suas escolhas de vida.

"Ah, Deus, pensou, desesperada, por que nos criou, por que maculou o universo com nosso fracasso, por que não descansou no quarto dia e se contentou com as estrelas silenciosas?"

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