A paixão segundo G.H., de Clarice Lispector

 


"(...) se eu for adiante nas minhas visões fragmentárias, o mundo inteiro terá que se transformar para eu caber nele."

    É notório de ler Clarice Lispector é uma atividade difícil. E é igualmente notório que ler Clarice Lispector não convida críticas ou avaliações. Um livro como este não é como qualquer outro, ele não se preocupa em se organizar para caber em você, leitor, nem em lógicas idealizadas de uma literatura convencional. Para ler Clarice, é preciso, como ela diz, ser uma "pessoa de alma já formada". Seja lá o que isso signifique.
    O enredo desse livro pouco importa, ele some ao longo da leitura e reaparece de vez em quando para nos lembrar que havia uma pequena lógica por traz de algo nesse mundo, mas essa lógica se desmancha diante de nós quando tentamos observá-la de perto, agarrá-la, fazer dela objeto. G. H., mulher rica, artista, em um dia qualquer, após demitir sua empregada Janair, decide limpar o fatídico quarto da empregada em sua casa. Desde essa declaração, percebe-se que, apesar de profundamente intimista e existencial, Clarice não deixa passarem despercebidas dinâmicas sociais que moldam nossa sociedade. O quarto de empregada não somente existe, como é o espaço que desperta em G. H. toda uma espiral de reflexões que a refazem enquanto indivíduo.
    Ao deparar-se com o quarto completamente limpo, contrariando suas expectativas, G. H. encontra um registro na parede de algo que parece ser um retrato dela. Nesse momento, sente-se dominada pelo choque da descoberta de ser percebida por alguém, de ser fragmentada pelas suas tantas versões de um eu que parecia unificado. Ela pensa em sua valise, grafada com suas iniciais, registro tão simples e coerente de uma pessoa que agora se deparava com tal complexidade e incoerência sobre si. E é bem nesse momento que ela se depara com a principal fonte de toda sua modificação: uma barata.

"Era isso - era isso então. É que eu olhara a barata viva e nela descobria a identidade de minha vida mais profunda."

    Acontece que, como eu falei, o enredo importa pouco para este livro. Importa pouco e ao mesmo tempo importa até demais, é algo que eu parecia tentar agarrar com as unhas ao longo da leitura, uma forma de trazer algum sentido para tantas reflexões. Mas era como tentar agarrar um rio.
    Esse livro me parece ser menos um romance ou algum gênero comum da literatura. Me pareceu, na verdade, ser um ensaio complexo e confuso sobre como a realidade e a identidade não são objetos sólidos e podem ser levadas ao chão e reerguidas com tal facilidade quanto se mata uma barata. As ações humanas, as interpretações daquilo que acontece ao nosso redor, são apenas nossas tentativas tolas e perdidas de compreender o incompreensível. Com esse livro, Clarice desafia toda a lógica literária, todas as noções de sentido e razão que futilmente a humanidade tenta construir com tantas certezas. As epifanias constantes, o instante-já e todas as clássicas marcas claricianas nos levam em uma aventura difícil, confusa e muitas vezes incompreensível em busca de um eu insólito, fragmentado e fantasmagórico. 
    Clarice parece, através dessa narrativa, construir uma tese a respeito de algo que une toda a humanidade, ou até mesmo todos os seres vivos, por todos os lugares e tempos simultaneamente. Para ela, tudo está acontecendo a todo momento, e não há passado, presente ou futuro.

"Não te assustes como estou assustada: não pode ser ruim ter visto a vida no seu plasma. É perigoso, é pecado, mas não pode ser ruim porque nós somos feitos desse plasma.
(...) Ouve, por eu ter mergulhado no abismo é que estou começando a amar o abismo de que sou feita."

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