"Caminho de pedras" e a frustração da traição

 [ESTA RESENHA CONTÉM SPOILERS!]

[mas também... o livro tem 88 anos, né?]


"- Pensou que eu tinha mão de moça rica?
Filipe procurou consolá-la com uma brincadeira:
- Ora, diz que o mundo do futuro há de ser feito com as mãos assim..."

    Um pouco de contexto sobre essa autora tão... confusa.
    Rachel de Queiroz foi presa pela Ditadura Vargas, no ano que se inaugura essa página obscura de nossa história. Sua prisão aconteceu dia 28 de outubro de 1937, e foi durante os dois anos de cárcere que ela escreveu Caminho de Pedras. Isso tudo é importante porque a Rachel de Queiroz que lemos aqui não é a Rachel de Queiroz que morreu em 2003. É difícil saber a linha do tempo exata, mas a autora que escreveu este livro era recém ex-membra do Partido Comunista do Brasil e socialista libertária que havia visto seus livros serem queimados por um governo autoritário de cunho anti-comunista.
    Então, ao escrever esse livro, Rachel deposita brilhantemente suas críticas ao Partido Comunista, que a decepcionou muito durante sua filiação. É visível que muito do que frustrou a autora era o conflito eterno entre os operários e burgueses, que renunciavam sua classe para "ordenarem" o movimento. Rachel, como uma burguesa, não consegue deixar de trazer seu viés favorável a essa classe na discussão, mas também solidifica bem os argumentos da classe operária (afinal, se o movimento é para a libertação do proletariado, quem melhor para encabeçá-lo se não os próprios?).
    Mas sua crítica realmente mais assídua e brilhante está ligada ao gênero. As disputas de gênero que permeiam as discussões neste ambiente são exemplares perfeitos de como até os homens mais capazes de identificar um conflito de classes intenso não conseguem se observar como os próprios participantes e mantenedores de uma outra estrutura social que também hierarquiza os membros da sociedade, que é o gênero. Ao longo do livro, alguns diálogos embrulham o estômago de qualquer leitora que conhece bem homens tão revolucionários quanto aqueles.

"- Mas é muito justo que a gente deseje boas mulheres! Por que não? É um dos privilégios do burguês, as mulheres: tomam todas, as melhores, bem-tratadas, bem cheirosas. Para nós é o rebotalho... E o Paulino tem razão: queremos ter e ainda havemos de ter boas mulheres!"

    Mas, ironicamente (e você já vai entender o porquê), o livro não é só sobre esses conflitos internos à militância comunista. Nós acompanhamos o enredo cativante que enlaça Noemi e Roberto, dois revolucionários do partido, que [SPOILER] apaixonam-se. Mas acontece que Noemi é casada com João Jacques e com ele tem um filho. A mulher trabalha em uma Fotografia e sustenta ambos com seu salário, enquanto João Jacques, um intelectual bastante charlatão e arrogante, critica sua participação no Partido Comunista. Não porque ele seja contra as ideias, afinal ele, como o intelectual que é, as entende perfeitamente bem e até mais do que ela (sic). Mas, sim, porque ele acredita que aqueles membros são animais irracionais que não sabem tomar as atitudes corretas para conquistar o que desejam.
    Bom, é de se imaginar que não demora muito para Noemi e Roberto começarem a ter um caso e nós, leitores, junto com eles, passarmos a odiar João Jacques. Os dois logo ficam juntos, João vai embora para o Rio e o resto vou deixar para que você descubra lendo (vamos lá, são só 175 páginas. Você ainda consegue ler um livro esse ano).
    Acontece que Noemi, agora notoriamente uma traidora diante da cidade, passa a ser rejeitada por seus conhecidos e é até demitida de seu trabalho por conta de sua fama negativa na cidade. Com isso, Rachel sela sua tese feminista belamente e nos dá o gostinho amargo da misoginia para degustarmos até o final do livro.

"Procurava significados para seus gestos, interpretações complicadas para seus sorrisos e silêncios. Parecia-lhe uma falta, um erro, nada ter mudado em Noemi, nem o cabelo, nem o vestido, nem o andar. Sentia-se fraudada, ludibriada com aquilo.
Como é então que a gente vai conhecer uma mulher honesta?"

    Agora você vai entender o motivo desse título. Afinal, eu nunca fui contra um bom adultério literário (alô, Machado), então por que agora a traição me frustraria?
    Mas a traição que menciono aqui não é parte do enredo, e sim uma ironia do destino de Rachel de Queiroz, uma ironia ácida e violenta que tornou-a sua própria versão piorada de João Jacques. Em toda sua superioridade intelectual, sua cadeira na Academia Brasileira de Letras e sua crítica ferrenha ao comunismo, adivinhem quem essa mulher se tornou alguns anos depois de sua prisão política e da queima de seus livros por seu teor revolucionário?
    Rachel de Queiroz conspirou a favor da Ditadura Militar anos depois. Nem tantos anos assim, menos de 30. Ela, amiga pessoal de Castelo Branco, ajudou os militares a instaurarem o golpe que levou à ditadura mais violenta da história do Brasil (e isso dito abertamente pela própria em uma entrevista à Roda Viva). Ditadura essa que, assim como aconteceu com ela, prendeu centenas de militantes que ousavam posicionarem-se contra a violência estatal. Ditadura essa que matou inúmeras pessoas e consolidou uma forma de violência governamental que até hoje não conseguimos extinguir por completo. Ditadura essa que por muito tempo tentou apagar seus rastros da história, mas que manchou nossos chãos de sangue para todo o sempre, e contra a qual sempre teremos que lutar.
    Rachel de Queiroz é a verdadeira traidora dessa história. E o pior é que ela continuou defendendo essa postura violenta até o fim de sua vida. Nunca se arrependeu.
    A leitura de um livro como Caminho de Pedras deixa um gosto amargo na boca. Não somente porque a história, rápida e brusca, nos deixa angustiados com um desfecho tão triste para os personagens. Mas muito mais porque, ao terminar o livro, a única coisa que nos resta é lembrar de quem essa autora viria a se tornar no futuro próximo, para ela, e passado presente, para nós. E os efeitos de suas ações não são para personagens fictícios em um mundo inventado, mas para pessoas reais que até hoje sofrem a perda de seus filhos, pais, irmãos e amigos.
    Rachel, espero que o lugar em que você está agora seja perfeitamente coerente com a pessoa que você foi. E espero que o perdão de Deus seja maior que o nosso, aqui na terra. Você vai precisar.

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