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A morte de Ivan Ilitch, de Liev Tolstói

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  "Foi até o escritório, deitou-se e ficou de novo sozinho com ela . Face a face com ela , e não havia o que fazer com ela . Só olhar para ela  e gelar."     Há quase sempre, na literatura russa, um quê de angústia existencial. Com A morte de Ivan Ilitch não é diferente. O livro, rompendo com uma linha do tempo tradicional, se inicia descrevendo as reações das personagens ao descobrirem que Ivan Ilitch morreu. Assim, parte para uma curta narração da vida desse personagem, descrevendo todas as decisões que tomou até chegar naquele momento amedontrador.     Essa novela é muito curta, mas é tão cheia de acontecimentos, reflexões e momentos de angústia que se torna um romance robusto em poucas páginas. A vida de Ivan Ilitch é muito emblemática: o personagem, tão focado em conquistar para si uma vida "correta", que cumprisse com todas as expectativas compartilhadas pela sociedade, acaba adoecendo de maneira obscura, confusa e sem perspectiva de solução. Ivan Ili...

Amêndoas, de Won-pyung Sohn

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  "[...] ser uma pessoa comum era seguir o caminho mais complicado."     Uma decepção literária para começar o ano...     Há meses eu tinha vontade de ler Amêndoas; sempre via a capa em livrarias e via esse livro aparecer em recomendações que me apareciam na internet. Parecia ser um livro sensível, inovador e com um quê de coming of age  que eu sempre gosto. E, realmente, quando comecei, tive a sensação de que ele iria cumprir a expectativa literária que depositei nele, ao menos parcialmente. Mas, a partir da terceira parte -- ele é dividido em 4 partes --, toda a experiência literária positiva foi por água abaixo.     Esse livro conta a história de  Yunjae, um menino que nasceu com uma condição no cérebro que faz com ele não seja capaz de sentir emoções. Medo, tristeza, alegria, ansiedade, nada disso. Por conta disso, sua mãe e sua avó fazem grandes esforços para que ele se adapte ao mundo e não seja recebido pelas pessoas com desprezo. Elas...

Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis

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  "A obra em si mesma é tudo: se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se não te agradar, pago-te com um piparote, e adeus."     De certo você vai ler essa resenha pensando que é lógico que eu não tenho muito a acrescentar à discussão a respeito desse livro. E realmente, o que mais pode uma pessoa comum dizer sobre o grande clássico de Machado de Assis?     Posso começar refletindo sobre o porquê de esse livro ser o clássico que é. Um dos motivos é claro que é o defunto-autor, uma invenção completamente incomparável a qualquer outro evento literário da época (e, convenhamos, até hoje é difícil apontar alguém que tenha criado algo da mesma magnitude). Um autor que é primeiro defunto, porque passa a ser autor apenas depois de morrer. E como pode que, no livro que representa o movimento literário chamado realismo , o elemento mais essencial da história é fantástico, mágico? E como pode que é justamente esse elemento fantástico que faz com que o livro seja, de...

A cabeça do santo, de Socorro Acioli

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  "Quando se virou para observar o lugar onde estava, com a ajuda da pouca luz do sol encoberto, Samuel percebeu que a gruta onde passou a noite era, na verdade, uma cabeça gigante, oca e assustadora. Uma cabeça de santo."     O realismo mágico sempre tem seus jeitos especiais de entrar no coração de um latino. Pois com esse livro não é diferente. Aquilo que Gabriel García Marquez ensinou para Socorro Acioli na oficina "Como contar um conto" se vê trabalhado com maestria nessa história. O realismo mágico tem algo muito especial e diferente de qualquer outro gênero que trabalha com os limites da realidade, que é justamente o fato de ser sempre muito divertido. E acredito que Acioli saiba muito bem como trazer esse elemento para essa história, que parece, a princípio, ser tão tensa e difícil.     Além disso, acho que muitos livros são construídos com a intenção de serem adaptados ao cinema, e um leitor experiente pode ser muito capaz de ver esses traços em qualque...

Katábasis, de R. F. Kuang

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  "Magia, a mais misteriosa e caprichosa das disciplinas, admirada por seu poder e ridicularizada por sua frivolidade, é, em resumo, o ato de contar mentiras sobre o mundo."     Se você acompanha este blog desde a primeira resenha, você sabe que eu levo a R. F. Kuang muito a sério. O primeiro livro que li dela, A guerra da papoula , me tirou de helicóptero de uma ressaca literária intensa. O segundo que li, Babel , tem sido minha recomendação coringa para qualquer pessoa desde antes mesmo de eu terminá-lo. Cheguei até a emprestar para um aluno, que ficou igualmente impactado pela história. Li também Impostora , que também resenhei este ano. E agora acabei seu lançamento mais recente, Katábasis .     Para quem não sabe, assim como eu antes de ler, o substantivo grego katábasis  significa "a descida de um herói ao submundo". E logo eu, que não sou estranha a Dante Alighieri, fico sempre intrigada por uma boa viagem ao inferno. Viagem essa que, neste livro, se...

Frida Kahlo e as cores da vida, de Caroline Bernard

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"Essas são as duas mulheres que tenho dentro de mim, pensou, enquanto continuava a pincelar a tela de branco. A mulher que quer viver do jeito que lhe convém e a mulher que carrega a carga da tradição e da história."     Quem gosta de julgar um livro pela capa? Pois bem, se você olhar para essa capa toda linda, colorida e cheia de detalhes, deve sentir a maior vontade de ler esse livro. Comigo foi assim, ainda mais quando vi que era a biografia de Frida Kahlo. Mas, como bem pode-se esperar de um livro sobre uma mulher mexicana escrito por uma alemã, não foi bem uma obra prima.     A história de Frida é muito intensa. Logo cedo, aos 6 anos, foi acometida por uma poliomielite, que a deixou com dores crônicas. Aos 18 anos, sofreu um gravíssimo acidente de ônibus no qual seu ventre foi atravessado por uma barra de metal. Por conta desse acidente, passou muitos meses hospitalizada e, mesmo ao receber alta, teve de ficar anos acamada usando um colete de gesso até se recupe...

Três, de Valérie Perrin

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  "Nina era o elo que unia os dois. Sem ela, Adrien e Étienne não se encontravam. Eram três, ou nada."     Há muito tempo, Três  estava na minha lista de leituras. Em qualquer vídeo de recomendação de livros contemporâneos, pode ter certeza que este vai estar lá recomendado e extremamente elogiado por leitores de todo o mundo. Por isso, quando comecei a ler, finalmente, minhas expectativas estavam bem altas. E então você pode pensar que é a pior receita para ler qualquer coisa.     Começamos conhecendo essas três crianças, Nina, Étienne e Adrien, colegas de classe que, por uma sorte do destino, acabam se conhecendo e se tornando amigos. A partir daí, os três são inseparáveis, vivem toda sua infância e adolescência juntos até que a vida os acaba separando. A narração é confusa a princípio porque ela transita entre uma narradora misteriosa em 1ª pessoa, Virginie, que se passa no presente (2018, nem tão presente assim), e uma narração em 3ª pessoa, que acompan...