Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis

 


"A obra em si mesma é tudo: se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se não te agradar, pago-te com um piparote, e adeus."

    De certo você vai ler essa resenha pensando que é lógico que eu não tenho muito a acrescentar à discussão a respeito desse livro. E realmente, o que mais pode uma pessoa comum dizer sobre o grande clássico de Machado de Assis?
    Posso começar refletindo sobre o porquê de esse livro ser o clássico que é. Um dos motivos é claro que é o defunto-autor, uma invenção completamente incomparável a qualquer outro evento literário da época (e, convenhamos, até hoje é difícil apontar alguém que tenha criado algo da mesma magnitude). Um autor que é primeiro defunto, porque passa a ser autor apenas depois de morrer. E como pode que, no livro que representa o movimento literário chamado realismo, o elemento mais essencial da história é fantástico, mágico? E como pode que é justamente esse elemento fantástico que faz com que o livro seja, de fato, tão realista?

"Um solteirão que expira aos sessenta e quatro anos não parece que reúna em si todos os elementos de uma tragédia."

    Como acredito que todos saibam, esse livro é narrado pelo próprio Brás Cubas, que, após a própria morte, resolve escrever a história de sua vida. Por estar morto, Cubas não tem amarra alguma com os vivos ou mortos com quem conviveu em vida, e isso faz com que sua narração seja muito crua, sem floreios e romantismos. Mas não o impede de constantemente tentar limpar, de alguma forma, sua própria imagem.
    Isso, inclusive, é outro ponto essencial da obra: em meio ao movimento do Romantismo, Machado lança um livro que vai na contramão de tudo aquilo que um leitor romântico espera. Um autor pouco heroico, uma morte pouco dolorosa. Os amores, as angústias, o sofrimento e a alegria são todos sentimentos provocados por situações que atravessam a moral humana, e não buscam ensiná-la ao leitor.

"Sim, senhor, amávamos. Agora, que todas as leis sociais no-lo impediam, agora é que nos amávamos deveras."

    É fácil enxergar em um livro do Machado a genialidade, as críticas sociais, o realismo afiado e a ironia ácida. É óbvio que o enredo é cativante, é divertido e contraria todos que creem que a literatura serve para educar. É claro que há adultério, interesse, dinheiro, loucura e traições. Mas,  como sempre penso lendo qualquer obra do Machado, o que mais me deixa maravilhada ao ler é sempre o humor. A forma como a história é narrada, como alguns trechos são construídos e alguns eventos são narrados é simplesmente muito engraçada, me pega desprevenida e me faz pensar que ninguém realmente precisa de stand-up comedy.
    Finalmente, não vou passar horas descrevendo o enredo, nem rasgando elogios a um livro obviamente bom. Vou apenas dizer que ler Machado de Assis sempre é edificante, inovador e impressionante. Seja aos 14, aos 20, aos 30 ou até depois de conhecer a geologia dos campos santos.

"Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria."

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