Três, de Valérie Perrin

 


"Nina era o elo que unia os dois. Sem ela, Adrien e Étienne não se encontravam. Eram três, ou nada."

    Há muito tempo, Três estava na minha lista de leituras. Em qualquer vídeo de recomendação de livros contemporâneos, pode ter certeza que este vai estar lá recomendado e extremamente elogiado por leitores de todo o mundo. Por isso, quando comecei a ler, finalmente, minhas expectativas estavam bem altas. E então você pode pensar que é a pior receita para ler qualquer coisa.
    Começamos conhecendo essas três crianças, Nina, Étienne e Adrien, colegas de classe que, por uma sorte do destino, acabam se conhecendo e se tornando amigos. A partir daí, os três são inseparáveis, vivem toda sua infância e adolescência juntos até que a vida os acaba separando. A narração é confusa a princípio porque ela transita entre uma narradora misteriosa em 1ª pessoa, Virginie, que se passa no presente (2018, nem tão presente assim), e uma narração em 3ª pessoa, que acompanha o crescimento dessas crianças desde 1987. Por conta disso, ficamos à espera de uma grande revelação que explique o porquê de Virginie saber tanto sobre os três amigos, ao mesmo tempo em que acompanhamos a linha do tempo lentamente conectar passado, presente e futuro.
    Desde o começo até o final da história, tantas coisas acontecem, tantas pessoas novas aparecem e velhas desaparecem. É verdadeiramente como observar a vida acontecer com outras pessoas, observar cada passo que dão até eventualmente ser jogado para longe. Acompanhamos Adrien ser perseguido por um professor, os três formarem uma banda, Nina roubar cartas de seu avô carteiro, viagens para conhecer o mar, amores e desamores, além de um mistério de morte de uma garota, Clotilde Marais. Uma verdadeira salada.
    Nina é uma personagem intrigante. Uma menina sem pai e mãe que é criada pelo avô, Pierre Beau, e que ama desenhar. Acompanhar seu crescimento, em um primeiro momento, parece que vai ser um uma tarefa prazerosa, emocionante, justamente pela pessoa que Nina é. Mas, à medida em que a vida acontece com ela, vemos como sua solidão a leva a caminhos desesperadores e trágicos. Ao mesmo tempo em que é extremamente frustrante vê-la tomar decisões que sabemos que vão fazer mal a ela, o livro faz um ótimo papel em mostrar como a fronteira entre uma vida perfeita e um desastre total pode facilmente ser cruzada.

"Sabe, Nina... a gente acha as coisas. E a gente se engana."

    Foi a primeira vez que li Valérie Perrin. Achei que seria uma das minhas leituras favoritas desse ano, realmente esperei muito, mas acabei me frustrando um pouco. Algo sobre as metáforas piegas que me lembravam a era tumblr, algo sobre uma narração que parecia não progredir em algumas partes, além de um mistério que não parecia se conectar realmente com o restante da história. Sei que, eventualmente, me peguei torcendo para que tudo acabasse logo, de uma vez, que as coisas se resolvessem para eu poder acabar o livro. Mas, ao mesmo tempo, se é que é possível, me peguei, ao final, agradecendo pelo caminho sinuoso que me deixou naquele lugar.
    O enredo, o mistério que move a trama são as verdadeiras joias desse livro. Pela sinopse e introdução do livro, parece que a história vai ser mais um romance de formação sobre esses três jovens confusos e perdidos na vida. Mas é muito mais do que isso: é uma história sobre amores de vários tipos, sobre persistência, abandono, sofrimentos, angústias, família e luto. Nos momentos em que você começa a ver os mistérios se desenvolvendo, aqueles nós confusos se desfazendo, você entende o que esse livro tem de tão especial. Por isso, acredito que seja uma leitura valiosa para aqueles que gostam de um enredo cativante e de mistérios para solucionar.

"Pra você a gente sempre vai ter um carro novo com o tanque cheio."

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