Frida Kahlo e as cores da vida, de Caroline Bernard


"Essas são as duas mulheres que tenho dentro de mim, pensou, enquanto continuava a pincelar a tela de branco. A mulher que quer viver do jeito que lhe convém e a mulher que carrega a carga da tradição e da história."

    Quem gosta de julgar um livro pela capa? Pois bem, se você olhar para essa capa toda linda, colorida e cheia de detalhes, deve sentir a maior vontade de ler esse livro. Comigo foi assim, ainda mais quando vi que era a biografia de Frida Kahlo. Mas, como bem pode-se esperar de um livro sobre uma mulher mexicana escrito por uma alemã, não foi bem uma obra prima.
    A história de Frida é muito intensa. Logo cedo, aos 6 anos, foi acometida por uma poliomielite, que a deixou com dores crônicas. Aos 18 anos, sofreu um gravíssimo acidente de ônibus no qual seu ventre foi atravessado por uma barra de metal. Por conta desse acidente, passou muitos meses hospitalizada e, mesmo ao receber alta, teve de ficar anos acamada usando um colete de gesso até se recuperar. Esse acidente destruiu um dos sonhos de Frida, que era estudar para ser médica. No entanto, enquanto estava em sua cama se recuperando, seus pais encomendaram um cavalete especial que permitia que ela pintasse quadros deitada. Junto a isso, colocaram um espelho no teto que dava a Frida a chance de se ver, o que a levou a fazer seu primeiro autorretrato.
 
Autorretrato com Vestido de Veludo (1926)

    Com essa nova possibilidade, Frida vê na pintura uma chance de produzir algo enquanto está incapacitada. Ela se sente impotente, perdida e solitária. Sente que os anos em que fica acamada são anos perdidos, então o registro desses momentos através da pintura torna-se o escape melancólico para sua condição. Em meio a toda essa angústia, ela pinta seu colete de gesso com todas as cores e flores que consegue, como uma forma de fazê-lo menos repugnante.

"Na imaginação, pelo menos, ela podia fazer tudo o que quisesse - ninguém haveria de tirar isso dela. Para que preciso de pés se tenho asas para voar?, ela pensava."

    Até o momento de sua recuperação, o livro parece muito habilidoso em reconstruir sua história romântica e dramaticamente. Sinto, com Frida, as dores e angústias de sua condição, ao mesmo tempo em que sinto o alívio do retorno à normalidade quando ela finalmente se vê recuperada. No entanto, é logo nesse momento em que ela conhecerá Diego Rivera, seu futuro marido e, em minha opinião, torturador emocional.
    Conhecer Frida é, infelizmente, conhecer seu relacionamento com Rivera. Frida o conheceu em uma festa de Tina Modotti, fotógrafa que se tornou sua amiga por conta de seu envolvimento no Partido Comunista Mexicano. Já em seus primeiros encontros com o homem, percebe-se sua sensação de inferioridade em relação a ele: ele é artista, ela apenas pinta; ele é comunista, ela apenas luta; ele é encantador, ela apenas se encanta. É claro que aqui reside o verdadeiro conflito deste livro, já que é muito difícil entender completamente se Frida de fato se sentia dessa maneira em relação a Diego ou se isso faz parte da dramatização da obra, o que é comum às biografias romantizadas.
    Acontece que, ao longo de sua trajetória com Diego, fico com a sensação de que a vida de Frida está sempre em segundo plano. É claro, como sua esposa, ela o acompanha em suas viagens ao exterior e se revolta contra suas traições constantes. Mas eu me pergunto com frequência durante a leitura: será que a vida de Frida era tão intoxicada por Diego assim? Será possível contar sua história sem que ela seja, na verdade, a história de Diego e Frida?

"Ainda não terminei. Sim, Diego Rivera, você é um homem machista. Apesar de suas frases sobre a revolução. Quem exatamente você quer libertar? Não as mulheres. Você também é um traidor da revolução que sempre almejou."

    É conflituoso e honesto ver como Frida, uma mulher feminista consciente de que Diego era um homem misógino e perpetuador dos papeis de gênero, ainda assim era dominada por seu comportamento. Mesmo que isso seja dolorosamente verdadeiro, é angustiante ver como Frida parece nunca conseguir se libertar das amarras deste homem. Ao longo de sua vida, ela mesma é capaz de reconhecer que Diego a faz mal, mas sempre acaba retornando para ele.
    Não acredito que isso seja um problema do livro, é claro que toda essa história de Frida com Diego é real. O problema que eu observo no livro é que ele faz parecer que o casal é praticamente predestinado a continuar junto, como uma história de amor de novela. Mas a realidade é que Diego construiu uma narrativa na cabeça de Frida que a convenceu de que ela era plenamente dependente de sua aprovação, de seus cuidados, e de seu amor. Até mesmo quando se separam, ela diz (não sei dizer se isso foi realmente dito por ela ou faz parte da romantização da obra) que eles são como um elástico que, ao ser tensionado, faz com que um retorne para o outro.
    A história de Frida é repleta de reviravoltas, camadas, angústias e problemas de saúde. É notório que a pintora passou por muitos abortos e seu sonho de ser mãe era constantemente destruído por sua condição física. E parece que, no fim das contas, ela estava sempre sozinha para enfrentar seus problemas, mesmo quando Diego ou outros de seus namorados estavam com ela. 

Autorretrato com um colar de espinhos (1940)

Memória (O coração) (1937)

Hospital Henry Ford (1932)

    Finalmente, é difícil delimitar bem o que me deixou frustrada com esse livro. Senti falta de mais profundidade ao retratar seus relacionamentos com mulheres. Senti falta de uma sensação de liberdade maior quando Frida e Diego se separam. Senti falta de um desfecho que não fizesse seu relacionamento com Diego parecer predestinado, mesmo que retratasse o fim de sua vida ao lado dele, que é a relidade. Senti falta de uma Frida madura que tivesse mais autoconfiança, que não tivesse que constantemente redescobrir sua existência para além de Diego. É sério, parece que o livro tem uns vinte momentos climáticos em que Frida finalmente reconhece e reforça que é Frida Kahlo, e não Frida Rivera, e que sua capacidade artística existe independentemente da de Diego, tudo só para esquecer novamente dali a três páginas e ter que relembrar depois.
    Por fim, acho importante mecionar que a escrita desse livro por vezes parece ter sido tirada diretamente do Wattpad. Muitas frases de efeito que fazem pouco pela narrativa, mas servem o propósito de se tornarem citações que você vê numa camiseta por aí. Além disso, é frustrante a quantidade de erros de digitação e revisão, além de algumas traduções que parece que querem manter a vibe mexicana (lembrando que o livro foi escrito em ALEMÃO), mas perdem a fluidez da leitura em português. É uma coisa toda.

"Não havia outros temas. Só minha família e eu mesma. Não consigo pintar a revolução, como você. Minha revolução é interna. Eu também sou uma revolução."

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