Amêndoas, de Won-pyung Sohn

 


"[...] ser uma pessoa comum era seguir o caminho mais complicado."

    Uma decepção literária para começar o ano...
    Há meses eu tinha vontade de ler Amêndoas; sempre via a capa em livrarias e via esse livro aparecer em recomendações que me apareciam na internet. Parecia ser um livro sensível, inovador e com um quê de coming of age que eu sempre gosto. E, realmente, quando comecei, tive a sensação de que ele iria cumprir a expectativa literária que depositei nele, ao menos parcialmente. Mas, a partir da terceira parte -- ele é dividido em 4 partes --, toda a experiência literária positiva foi por água abaixo.
    Esse livro conta a história de Yunjae, um menino que nasceu com uma condição no cérebro que faz com ele não seja capaz de sentir emoções. Medo, tristeza, alegria, ansiedade, nada disso. Por conta disso, sua mãe e sua avó fazem grandes esforços para que ele se adapte ao mundo e não seja recebido pelas pessoas com desprezo. Elas o ensinam a reagir a determinadas ações, a responder "adequadamente" a certas perguntas e a se calar para evitar constrangimentos.

[A PARTIR DE AGORA, ESTA RESENHA CONTÉM SPOILERS!]

    As primeiras partes do livro giram em torno desse conflito da vida de Yunjae com sua mãe e sua avó, que são as personagens mais interessantes e que constróem entre si e com o protagonista uma relação bonita. Porém, ambas personagens são brutalmente esfaqueadas por um assassino na véspera de Natal, enquanto comemoravam o aniversário de Yunjae. A avó morre e a mãe fica em coma o restante do livro.
    Interessantemente, essa não é a parte mais frustrante do livro, afinal, é extremamente angustiante e envolvente a história desse rapaz que, com uma deficiência que exige todo o suporte que ele tinha, passa a ser forçado a desbravar um mundo complicado e intolerante sozinho. Mas Yunjae não fica sozinho, ele recebe ajuda do Doutor Shim, personagem que era amigo de sua mãe e se torna praticamente uma figura paterna do protagonista.
    Na parte 2, Yunjae conhece Gon, um personagem que se perdeu de seus pais ainda muito pequeno e que reaparece para seu pai após uma vida obscura que o torna agressivo. Os dois constroem uma amizade confusa que cria no leitor uma expectativa de crescimento e desenvolvimento lindo, mas isso fica suspenso no ar.
    Tantas coisas acontecem, tanta gente se envolve e tantos eventos são iniciados e concluídos em questão de algumas páginas que o desfecho fica simplesmente jogado, sem desenvolvimento. Muito do que acontece é insano, inverossímil -- o que seria perfeitamente aceitável se fosse construído de maneira mais calma e significativa, ou se o livro tivesse qualquer qualidade mística. O que se tem, na verdade, é uma sequência de ações surpreendentes que constróem desfechos perfeitinhos demais que resolvem muito facilmente problemas que até então pareciam ser mais complexos.

[FIM DOS SPOILERS]

    Acho que um dos maiores defeitos do livro vem da própria concepção que a autora parece ter de sua literatura: ele parece ter sido construído para ensinar algo. Parece que foi feito para que você, leitor, aprenda algo muito específico com ele, e a narração peca ao não nos oferecer espaços em brancos suficientes para serem preenchidos por nós. Ela guia, induz a interpretação do leitor e o deixa de lado, como um mero observador. Responde perguntas demais, deixa tudo muito bem resolvido e não dá fôlego para elaborar os conflitos. Ao final da leitura, havia pelo menos uns 3 capítulos e mais um epílogo só para explicar o que aconteceu com cada personagem, o que me incomoda profundamente.
    Enfim, se você quer só passar tempo lendo uma história levemente interessante com conflitos que entretêm, essa é uma opção. Mas se prepare para um final decepcionante. E não venha dizer que não avisei...

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