A morte de Ivan Ilitch, de Liev Tolstói

 

"Foi até o escritório, deitou-se e ficou de novo sozinho com ela. Face a face com ela, e não havia o que fazer com ela. Só olhar para ela e gelar."

    Há quase sempre, na literatura russa, um quê de angústia existencial. Com A morte de Ivan Ilitch não é diferente. O livro, rompendo com uma linha do tempo tradicional, se inicia descrevendo as reações das personagens ao descobrirem que Ivan Ilitch morreu. Assim, parte para uma curta narração da vida desse personagem, descrevendo todas as decisões que tomou até chegar naquele momento amedontrador.
    Essa novela é muito curta, mas é tão cheia de acontecimentos, reflexões e momentos de angústia que se torna um romance robusto em poucas páginas. A vida de Ivan Ilitch é muito emblemática: o personagem, tão focado em conquistar para si uma vida "correta", que cumprisse com todas as expectativas compartilhadas pela sociedade, acaba adoecendo de maneira obscura, confusa e sem perspectiva de solução. Ivan Ilitch sente dores intensas, uma angústia excessiva e, principalmente, um ódio mortal por sua esposa e seus filhos, que constantemente o importunam com preocupações que não lhe interessam.
    Nisso reside o ponto mais interessante dessa novela. É justamente porque Ilitch estava tão preocupado em tomar as decisões que tornassem sua vida o mais comum possível, ao mesmo tempo em que tentava se destacar em seu emprego e entre seus colegas e amigos, que, ao se deparar com a realidade, adoece e morre. É como se a própria percepção de não ter tomado as melhores decisões, mesmo que fossem as decisões mais "corretas", e de ter se deixado levar pelos conformes da sociedade fossem empedrando-se em seu rim e causando-lhe uma dor física tão intensa que é capaz de matá-lo.
    Todo o conflito entre Ivan Ilitch e a própria ideia de morrer traz uma carga intensa ao livro, que faz com que suas poucas páginas ressoem como uma ópera melancólica. E ressoam até hoje, mesmo após 140 anos da publicação do livro. É impressionante que ainda tenhamos tanto a aprender com a vida -- e, principalmente, a morte -- de Ivan Ilitch.

"E Caio era mesmo mortal, e está certo que ele morra, mas que eu, Vánia, Ivan Ilitch, que eu morra, com todos os meus sentimentos, os meus pensamentos, é outra coisa. Não é possível que eu tenha que morrer. Seria horrível demais."

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