Pedro Páramo, de Juan Rulfo
"E embora não houvesse crianças brincando, nem pombas, nem telhados azuis, senti que o povoado vivia. E que se eu escutava somente o silêncio era porque ainda não estava acostumado ao silêncio; talvez porque minha cabeça viesse cheia de ruídos e vozes."
Juan Rulfo é um autor excpecional. Ele é um dos responsáveis por inaugurar o realismo mágico e, por meio dele, construir um gênero literário que marca profundamente os países da América Latina. Pedro Páramo é um livro que não apenas inventa toda essa forma de literatura, mas também é responsável por inspirar ninguém menos que Gabriel García Marquez. É simplesmente uma jóia literária.
Não chegue ao livro esperando que ele será dividido em capítulos claros e narrado em uma estrutura clássica. Acompanhamos, primeiro, Juan Preciado, um rapaz que vai à cidade de Comala procurar seu pai, Pedro Páramo, porque foi uma das últimas coisas que sua mãe lhe pediu para fazer antes de morrer. Ao chegar à cidade, Juan percebe que está completamente vazia, parece abandonada e morta. Ali, encontra Eduviges Dyada, uma antiga amiga de sua mãe, que o leva em uma jornada memorialística da história de Comala e de seu pai.
Parece muito simples, uma narrativa comum, até possivelmente uma jornada do herói clássica. Mas, ao longo da leitura, vamos percebendo que, na verdade, todas as pessoas daquela cidade estão mortas e quem conversa com Juan são os fantasmas dessas pessoas. Viajamos, junto a eles, em suas lembranças da cidade, de seus amores e, principalmente, da vida de Pedro Páramo, que é tratado como a própria figura personificada da maldade.
"-- Esta cidade está cheia de ecos. Parece até que estão trancados no oco das paredes ou debaixo das pedras."
Entendo perfeitamente o que atrai tanta gente a um livro como esse, inclusive o Gabo. O misticismo do realismo mágico constrói um enredo intrigante e curioso, até mesmo engraçado em alguns momentos, mas profundamente angustiante e trágico. A cidade, após sofrer uma vingança de Pedro Páramo, recebe quase uma maldição eterna. Todos ali tem seus fantasmas presos, condenados a relembrarem constantemente os horrores que Páramo causou, em vida, a todos eles.
Eventualmente, na narrativa, até perdemos, de certo modo, Juan Preciado. De tanto abrir espaço para que os outros personagens contem suas memórias, o próprio protagnista se transforma em ouvinte e se deixa escantear em sua própria história. E o que fica é a sensação de uma cidade que é a verdadeira personagem principal, marcada pela tirania e violência de uma só pessoa repleta de poder e raiva. É um livro de começar tranquilo, até sorrindo, e terminar profundamente dolorido.
"Lá, de onde viemos agora, pelo menos você se distraía olhando o nascimento das coisas: nuvens, pássaros, o musgo, lembra? Aqui, porém, você não sentirá nada a não ser esse odor amarelo e azedo que parece destilar por todo lado. É que este é um povoado infeliz, todo sufocado nos infortúnios."
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