As Meninas, de Lygia Fagundes Telles

 


"Para que eu seja assim inteira (essencial e essência) é preciso que não esteja em outro lugar senão em mim."

    As Meninas é um sufoco. Quando li pela primeira vez era pandemia, li com minhas amigas em um clube do livro e precisei da primeira reunião para entender que as narradoras eram três pessoas diferentes. Agora, nessa releitura, vejo o quanto esse livro me marcou e, ao mesmo tempo, o quanto perdi dele na primeira vez. Percebo, agora, que esse livro é um livro de estante, um para ter guardado por toda sua vida e para ser revisitado de tempos em tempos. É um livro para ir saboreando com os anos, degustando, decantando. Parece que, à medida em que eu amadureço, o livro amadurece junto.
    Lygia Fagundes Telles é uma joia rara que temos o prazer de ler em sua língua original. Em um país que tem Machado de Assis, Jorge Amado e Clarice Lispector, parece inacreditável que tenhamos ganhado em tantas loterias literárias a ponto de termos também a Lygia. Ela, que recentemente nos deixou (mas não sem causar a maior confusão na cabeça de seus fãs), não recebe a exaltação que merece, mas pode ter certeza que enquanto eu for leitora e professora, faço questão de mantê-la tão viva quanto ela merece ser.
    As Meninas conta a história de três universitárias conflituosas e complexadas que vivem em um pensionato em São Paulo no ano de 1969: Lorena - na minha opinião, a protagonista -, uma garota rica idealista, apaixonada e reflexiva que tem um caso secreto com um homem casado, M. N.; Lia, ou Lião, uma revolucionária de esquerda cujo namorado está preso; e Ana Clara, uma verdadeira representante da fuga da repressão da ditadura pela liberdade exacerbada do uso de drogas e álcool.

"(...) nada melhor do que a morte pra apagar as pegadas como a onda apaga toda a escrita da areia."

    Esse livro subverte completamente a estrutura tradicional de narração. Ao mesmo tempo, é narrado pelas três protagonistas e por um narrador em terceira pessoa. E mesmo este último não traz o conforto da organização linear de acontecimentos ou da compreensão de uma realidade concreta de fato. Tudo é perspectiva, é impressão pessoal, é interpretação. Lygia escancara para nós a verdade absoluta de que não há verdades absolutas; ela nos relembra constantemente que tudo na vida é fragmentado e interpretado por nós mesmos, e que a realidade nada mais é do que uma fantasia distante de uma infância perdida.
    O livro te deixa, a cada capítulo, com uma sensação de falta, de confusão, de incompreensão. Vários acontecimentos cruciais da narrativa, responsáveis por moldar fortemente as personagens - e até nós, leitores -, parecem ser elementais e concretos, pilares rijos de sustentação do enredo. E, quando você menos espera, você vê toda essa concretude se dissipar no ar e formar uma névoa que te cega por alguns instantes, mas, ao sumir, te deixa em um lugar completamente diferente do que você conhecia até então.
    Esse livro é um verdadeiro soco no estômago. Com tantas faltas e perguntas sem respostas, encarar esse livro é encarar a incompletude de nossas perspectivas. A realidade, como conhecemos, não existe, é apenas uma figura fantasmagórica que paira no ar, e nós, incapazes de fazer dela uma figura concreta, fabricamos e demolimos nossos próprios edifícios em seu entorno eternamente. Ao sair desse livro, não precisamos de respostas sobre o enredo, pois entendemos plenamente o que o livro significa. O enredo é secundário em relação a isso.

"Não era amada? Não certamente não. Mas continuaria amando amando amando até - morrer, não. Até viver de amor."

    Em um Brasil tomado por uma ditadura sanguinária e violenta, acompanhamos essas meninas cujas vidas se afogam nesse mar violento de repressão. Cada uma, à sua forma, encara essa situação e encontra sua forma particular de rebelar-se contra o sistema: Lorena, com seu namorado casado, Lia, com a luta armada, e Ana Clara, com as drogas. Quem pode julgá-las? Elas são apenas vítimas de uma sociedade que desampara jovens, destrói infâncias e reprime desejos. Não há nada mais libertador do que fazer de suas vidas suas próprias revoluções.
    Impressiona ver como um livro desse foi lançado em plena ditadura militar (1973) e não tenha sido censurado. A própria existência dessa narrativa é um convite à luta, à revolta, à rebelião. É uma demonstração da impossibilidade de neutralidade, mesmo quando você quer muito que ela exista. É impossível sair desse livro da mesma forma como se entrou.
    Existe uma vida antes e depois de As Meninas. Ainda bem que não lembro como eu era antes. Agora, sempre serei o depois. E a cada leitura serei mais e mais depois. Te convido a conhecer o seu depois.

"Acho apenas que você nunca será como eu e eu nunca serei como você, não é simples? E não é complicado?

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