Persépolis, de Marjane Satrapi

 


"Claro que, mesmo com todas essas ameaças, as festas continuavam. Alguns diziam: 'Para poder suportar psicologicamente...', e outros completavam: 'Sem festa, pode encomendar nossos caixões'."

    Persépolis é o nome que se deu à Cidade Persa ainda na antiguidade. Hoje, as ruínas desse lugar são consideradas patrimônio mundial pela UNESCO e simbolizam um poderoso registro histórico da antiga Pérsia, atual Irã. Mas a história de Marjane Satrapi acontece em anos muito mais recentes com a guerra entre Irã e Iraque, iniciada nos anos 1980, nesse mesmo cenário de ruínas e conflitos.
    Através de uma belíssima história em quadrinhos, Marjane relata como sua vida mudou quando um governo autoritário teocrático tomou conta de seu país, Irã, e passou a ditar exatamente como as pessoas deveriam viver suas vidas. As mulheres, que até então se vestiam como queriam, se viram obrigadas a usarem véus e até chador , uma roupa que cobre completamente seu corpo e deixa visível apenas seu rosto. Marjane, que estudava em um liceu francês, se viu, ainda criança, obrigada a abdicar de seus costumes progressistas para adequar-se a um regime em que a moral religiosa reinava e a repressão era significativa. Mas é claro que ela, sendo rebelde, fazia questão de questionar esses costumes e se colocar em muitas encrencas por isso.

"Na vida você vai encontrar muita gente idiota. Se te ferirem, pensa que é a imbecilidade deles que os leva a fazer o mal. Assim, você vai evitar responder às maldades deles. Porque não tem nada pior no mundo do que a amargura e a vingança... Seja sempre digna e fiel a você mesma."

    É comum, quando nos deparamos com as histórias de países tomados por guerras, governos autoritários e extremismo religioso, que pensemos que as pessoas ali são reduzidas a isso. Como se, ao serem invadidos por essa violência toda, tudo mudasse por dentro e por fora. Persépolis é um livro essencial para compreender que, na realidade, as pessoas que muitas vezes vemos representadas apenas em seus piores momentos, continuam sendo pessoas comums, com sonhos, ideais, fés, desejos, vontades e tudo o que todos nós também temos. É um livro que nos mostra que existem formas sutis, íntimas e revolucionárias de lutar contra aquilo que te reprime.
    Marjane conta sobre a intimidade de sua casa, sua relação familiar, seus princípios revolucionários e de esquerda, suas formas individuais de rebelião à guerra e ao governo que a sufoca. Mas também mostra experiências universais de amadurecimento, busca por uma identidade em meio aos conflitos que a cercam, descoberta de sua sexualidade, tudo o que todos nós experienciamos ao crescermos. No entanto, essa experiência, para quem vive em um país em guerra, é para sempre contaminada pela violência cotidiana. O poder literário desse livro reside justamente nesse contraste entre os horrores da guerra e do autoritarismo e a vida pessoal de uma garota iraniana comum.

"A chave do paraíso era para os pobres. Com a promessa de uma vida melhor, milhares de jovens, com a chave pendurada no pescoço, explodiram nos campos minados. O filho da dona Nasrin foi poupado. Mas vários garotos que moravam no bairro dele tiveram esse fim.
Enquanto isso, eu fui à minha primeira festinha. Minha mãe não só me deixou ir, como fez pra mim uma blusa cheia de furos e um colar de correntes e pregos. Era a época do punk. Eu estava com um visual dos infernos."

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