Anarquistas, graças a Deus, de Zélia Gattai
"Nossa vida simples era rica, alegre e sadia. A imaginação voando solta, transformando tudo em festa, nenhuma barreira a impedir meus sonhos, o riso aberto e franco. Os divertimentos, como já disse, eram poucos, porém suficientes para encher o nosso mundo."
Não é difícil se apaixonar por Zélia Gattai. Desde que visitei sua casa em Salvador e conheci uma parte tão íntima de sua vida, me fascinei por quem ela era e por sua relação tão linda com Jorge Amado. Mas acontece que eu nunca havia lido nenhum de seus livros. E, agora que li Anarquistas, graças a Deus, posso dizer que toda minha paixão por ela era tão pouca perto do que se tornou.
O livro conta a história de sua família italiana anarquista nos anos 1920 em São Paulo. Filha de Ernesto e Angelina, pais rígidos e amorosos, de convicções políticas fortes, Zélia é a caçula de cinco irmãos, Remo, Wanda, Vera e Tito. Sua família morava na Alameda Santos nº 8 e, naquela casa, Zélia viveu toda sua infância e adolescência rodeada de figuras políticas de importância, livros clássicos e livros populares, vizinhos curiosos e animais de rua.
Apesar do título talvez chocante para alguns, esse livro não é um livro de conversão política, nem necessariamente é um livro sobre o anarquismo. Na verdade, é um relato pessoal que humaniza certas figuras tão historicamente desumanizadas por um projeto político. É uma forma de conhecer um pouco da realidade daqueles que de fato viviam uma vida movida por um ideal social e se dispunham a tentar construir uma comunidade com esse mesmo ideal.
"O difícil, o mais difícil de tudo era explicar, fazer as pessoas compreenderem a coisa mais primária , mais simples: 'O povo unido pode mover o mundo... mas não existe união, não existe compreensão, a ignorância domina...'"
Participar dessas histórias é como reviver as nossas próprias. Deve ser próximo de impossível ler um livro como esse e não ver a si mesmo nos anseios infantis de uma jovem Zélia, menina atrevida, curiosa que tenta fazer sentido do mundo ao seu redor. Ou identificar-se com Ernesto e Angelina, pais sérios que tinham a vida dos filhos como preocupação maior, além de suas próprias preocupações individuais, como a oficina, a casa, a preocupação com um governo autoritário que se instauraria no meio dessa essa narrativa. Ou, também, reconhecer-se em Vera e Wanda, adolescentes namoradeiras que sonhavam com seus futuros.
O poder literário de Zélia está em fazer literatura com o simples, o cotidiano. Está em, apenas contando suas lembranças de criança, relembrar todas as dores e prazeres de crescer. Está em fazer com que suas histórias tão pessoas e íntimas façam parecer História-com-H-maiúsculo. É para isso que se lê Anarquistas, graças a Deus. É para encontrarmos, em uma narrativa de mais de 4 décadas, a nós mesmos.
"Voltei para casa de mãos dadas com papai. Eu lá embaixo, ele um gigante quase alcançando o céu, me protegendo. Sempre me protegeria - disso estava certa - com sua força e sua bondade, contra todas as injustiças, contra qualquer diabo que quisesse se apoderar de minhas sombras."
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