A Vegetariana, de Han Kang
"'Você tem cheiro.'
'Cheiro de quê?'
'Carne. Seu corpo cheira a carne.'
Dei uma sonora gargalhada.
'Você não viu que acabei de sair do banho? De onde você pode sentir esse cheiro em mim?'
Sua resposta foi cortante. 'De todos os seus poros.'"
O segundo livro ganhador de Prêmio Nobel de Literatura que eu li esse ano, primeiro Nobel da Coréia do Sul. Li consideravelmente depois de sua fama maior, que acredito que tenha sido em torno de 2020 (foi quando ouvi falar dele pela primeira vez através de minha amiga Aline). Também li depois de minha madrinha, que foi quem me presenteou o livro em 2021 (eu tardo, mas não falho). Também li depois de minha mãe, que leu no começo desse ano, assim que foi laureado, e depois do meu irmão, que leu com os amigos em um clube do livro. Ou seja, minha sensação é de que eu fui a última pessoa do mundo a ler esse livro. E que demora...
A história dele não é exatamente o seu ponto mais especial, nem tampouco as personagens. O que, pra mim, é a brilhanteza desse livro é a narração, e é o fator que acredito ter sido parcialmente, pelo menos, responsável pelo seu sucesso. A personagem principal, Yeonghye, é o fio que conecta toda a trama do complicado tecido que é o enredo desse livro. E, mesmo assim, a sua perspectiva quase nunca é oferecida ao leitor. Ao contrário, ficamos sujeitos a conhecer essa delicada personagem somente através dos olhos de outros: em um primeiro momento, seu marido, depois, seu cunhado e, por fim, sua irmã. E, em todas as ocasiões, o gosto que ficava na boca era de falta. A falta de conhecer, realmente, o que acontecia na cabeça de Yeonghye, de entender suas escolhas, de compreender suas linhas de pensamento, de mergulhar junto com ela em suas reflexões. O único momento em que a protagonista narra em primeira pessoa é quando conta seus sonhos que a motivaram a deixar de comer carne. Só então entendemos, e de maneira muito breve e rápida, algumas de suas decisões.
"Gritos e choros se sobrepõem e ficam encravados aqui. É por causa da carne. Comi carne demais. Todas essas vidas estão entaladas aqui."
Mais do que uma história sobre tornar-se vegetariano, A vegetariana é uma história sobre encontrar razão em meio ao caos e à loucura, encontrar agência. A personagem principal, em busca de libertar-se desses sonhos terríveis que a fazem parar de comer carne, tenta a todo custo tomar as rédeas de sua vida, escolher os caminhos que quer seguir, libertar-se desse horror em sua mente. E, ao fazer isso, depara-se apenas com questionamentos, ódio, dúvidas, manipulações e incompreensão de todos os membros de sua família. Acontece que nós, leitores, só conseguimos empatizar com Yeonghye como alguém empatiza com um leão enjaulado em um zoológico. Você não pode ouvir suas angústias, não pode ver o que se passa em sua cabeça, então, só te resta imaginar.
A narração de seu marido, a primeira, descreve o momento em que a protagonista decide deixar de comer carne e joga fora tudo que havia de origem animal em sua geladeira. O marido, inconformado, tenta por dezenas de páginas nos convencer de que essa escolha é absolutamente irracional e egoísta, mas nós, leitores críticos (é com você mesmo que eu estou falando) sabemos que a sua forma de enxergar os fatos é o verdadeiro ato egoísta. Em seguida, a perspectiva do cunhado surge e nos mostra que não há diferença alguma entre a visão que estes homens têm de Yeonghye: ela é apenas algo em relação a eles. Para o marido, o incômodo, a expectativa frustrada, a mulher-menos-bonita-e-mais-esquisita-que-sua-irmã; para o cunhado, a fantasia, o mistério da loucura, a mulher-mais-bonita-e-mais-misteriosa-que-sua-esposa. Nos dois casos, ela é apenas uma projeção das faltas que estes homens sentem em suas vidas. E é igualmente responsabilizada por essas faltas.
Ao final, quando a irmã de Yeonghye começa a narrar, percebe-se a mudança nesse papel. É claro, ela também sofre com as escolhas da irmã, e também sofre com a responsabilidade de ter que resolver os problemas causados por ela e por seu marido. No entanto, a compaixão, a compreensão de algo mais profundo que conecta ela à irmã paira no ar. Ela entende, por mais que odeie, que a irmã tem aquele mesmo problema sem nome que ela. E isso leva a história a uma conclusão poética, profunda e verdadeiramente feminista, de compreensão de que as mulheres são unidas por algo que não é fácil de delimitar, muito menos de se explicar, mas é perfeitamente fácil de entender, quando se é uma.
"De repente, se deu conta de que nunca tinha vivido e ficou surpresa. Era verdade. Não tinha vivido de fato. Desde o tempo remoto da infância, tudo o que ela fizera foi aguentar."
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