Casa Velha, de Machado de Assis

 


"Há grande diferença social entre um e outro, mas a natureza, assim como a sociedade a corrige, também às vezes corrige a sociedade."

    Machado em sua fase romântica pode parecer ingênuo, com uma escrita simples e um enredo superficialmente tradicional. À primeira vista, Casa Velha não passa de uma novela romântica sobre um amor impossível. E realmente é isso que o livro é, mas existe uma incoerência cósmica em ler Machado de Assis e conformar-se apenas com a pura superfície do texto.
    Essa obra foi publicada em uma revista feminina daquelas bem românticas que traziam em uma seção um molde para um vestido, em outra uma receita de gelatina mosaico com creme de leite e em outra ainda um romance que se atualizava semanalmente com novos capítulos. Nos anos de 1885 a 1886, posteriormente ao lançamento de Memórias Póstumas de Brás Cubas (o que nos levaria a pensar que seria da fase realista do Machado), ele publicou esta pequena novela em uma dessas revistas. E, ao contrário de seus outros romances de folhetim, não voltou a publicá-la posteriormente por editora. Provavelmente porque ele próprio reconhecia que essa obra não era um grande destaque, ou porque era um livro engavetado até ser publicado e ele quis que permanecesse, em certa medida, escondido nos vales escuros do passado. Podemos imaginar para sempre o que se passou na cabeça de Machado a respeito dessa obra (e, vamos ser honestos, a respeito de muitas outras...).
    O que acontece é que uma pesquisadora, Lúcia Miguel Pereira, reencontrou por acidente esse livro perdido e pôs-se a procurá-lo por completo em registros de revistas. Ao todo, demoraram 8 anos para que ele fosse reconstruído inteiramente. E, agora, é leitura obrigatória da Unicamp. Isso serve para mostrar, Machado querido, que uma vez que algo é publicado, até mesmo antes da internet, sempre existe alguém dedicado o suficiente pra reencontrar. E aqui jaz seu desejo de esconder essa obra.
    
"Isso não é novela de príncipes que acabam casando com roceiras, ou de princesas encantadas."

    A maravilha eterna de ler Machado de Assis é sempre perceber que o livro não é só aquilo que ele diz ser. Vamos encarar a realidade: o espaço na literatura para pessoas negras como Machado não era simples de ser acessado. Exigia um talento excepcional, muito maior do que o das pessoas brancas e uma habilidade de ser aceito em um meio que odiava tudo aquilo que você era. Não que tenha mudado muito. Sabemos que a escrita de Machado é excepcional desde sua estreia com teatro e podemos ver sua evolução ao longo dos anos, seu amadurecimento e refinamento a partir de sua fase realista. Mas o que não deixa de ser verdade é que, antes desse amadurecimento, suas obras já eram profundas, sagazes e ácidas.
    Esta novela conta a história de um padre, o narrador, que visita a casa velha, onde vive Dona Antônia com seu filho Félix e uma agregada, Lalau. Desde já, percebemos a dinâmica social da burguesia nesse momento, afinal, Dona Antônia era esposa de um ministro que recentemente falecera. O padre, com seu projeto de escrever uma história sobre o Primeiro Reinado, põe-se a revirar os antigos arquivos do ministro em uma busca por informações relevantes. Mas todo esse projeto fica em segundo plano quando vemos que Félix e Lalau apaixonaram-se.
    Dona Antônia, mesmo amando Lalau e tratando-a quase como filha, não deixa de constantemente reconhecer sua condição financeira como inferior e de opor-se veementemente à ideia de casá-la com seu filho, afinal, ele é um rapaz de formação excelente e de família rica. A partir desse conflito, desenrola-se um enredo rápido, de fácil e intrigante leitura e de final surpreendente.
    E, em meio a esse simples tecido literário, pode-se perceber alguns fios entranhados nessa trama que fazem dessa novela machadiana. As críticas sociais à burguesia evidentemente se mostram apenas para aqueles de olhar aguçado e familiarizados com o estilo do autor, bem como sua acidez e ironia sutil, bem escondida em meio ao romance tradicional. Aqueles que se comprometerem a mergulhar além da superfície textual, conseguirão observar o traço machadiano que tanto amamos. É como uma janela que, à primeira vista, reflete como um espelho, mas, ao aproximar-se dela, vê-se toda uma sala repleta de olhares que te observam.

"A moça representava aos olhos dele alguma coisa mais do que uma simples criatura, era a sociedade humana, e uma sombra de uma sombra da consciência antiga."

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