Memórias de Martha, de Julia Lopes de Almeida

 


"Há flores nos pântanos, e refletem-se muitas vezes na lama os raios das estrelas."

[Essa resenha contém SPOILERS]

    Ano passado, em plena movimentação de pré-vestibular, os preparativos a todo vapor, a Fuvest lançou a sua lista de leituras obrigatórias para o vestibular de 2026¹ e, para a surpresa de todos, revelou um feito inédito: uma lista composta apenas de mulheres. Esse feito foi completamente inovador e nos mostrou uma comprovação daquilo que nós, feministas, sabemos há muito tempo: as mulheres sempre foram plenamente capazes de fazer parte da produção intelectual, artística e literária, e sempre o fizeram, mesmo que às escondidas. O que aconteceu, ao longo do cruel curso da história, foi o apagamento de suas inúmeras contribuições. O vestibular da Fuvest, em um movimento de resgate histórico, dá um espaço de notoriedade àquelas apagadas pela história. Em listas que, por anos, foram compostas de apenas homens, homens e mais homens, vemos uma luz no que diz respeito ao espaço feminino da literatura.
    Memórias de Martha, de Julia Lopes de Almeida, é um dos livros resgatados por esse movimento da Fuvest. Encaixa-se perfeitamente naquele espacinho reservado para um livro-realista-sobre-pobreza-no-Rio-de-Janeiro que o vestibular ama, e que normalmente era preenchido por Machado de Assis. O livro não deixa nada a desejar quanto a isso, inclusive, sob uma perspectiva de um aluno desesperado com a dificuldade da leitura, esse é um livro de altíssima facilidade e com uma história interessante o suficiente para não desestimular completamente a leitura. Além disso, eu arrisco dizer que pode ser até mais interessante do que alguns outros livros realistas que conhecemos, por finalmente trazer uma perspectiva verdadeiramente feminina sobre as questões que os realistas amavam abordar (pobreza, desigualdade social, determinismo etc).
    Ler este livro é acompanhar a vida dessa personagem, Martha, que foi, por anos, afetada por completo por questões que estavam fora de seu controle. Quando muito nova, Martha perde seu pai, o que faz com que ela e sua mãe tenham que mudar-se para um cortiço, e essa condição de muita pobreza e desigualdade social faz com que a protagonista se depare com uma realidade que não é facilmente compreendida por uma criança.

"Em casa da ilhoa ou em casa da freguesa, caía sobre mim, com todo o peso, o horror da minha incompreendida situação."

    Acompanhamos o percurso da vida de Martha e sua mãe lutando pela sobrevivência em meio ao horror da condição que lhes foi imposta pelo destino. Para Martha, a única via de libertação dessa condição são os estudos e a possibilidade de tornar-se professora. E é esse caminho que a leva para uma casa melhor, quando ela começa a trabalhar junto à sua professora e receber um pequeno salário que permite pagar um aluguel em uma casa. Nesse momento, Julia Lopes de Almeida traz uma pérola de sabedoria que reflete bem a sua própria história: ela, enquanto mulher que recebeu uma educação formal, reconhece a importância dessa para a emancipação das mulheres e para a ascenção social. O livro nos mostra que, por toda história, as mulheres foram condicionadas a viverem sob tutela dos homens e, enquanto fossem afastadas da educação formal e de igual qualidade que a dos homens, continuariam nessa condição.
    E é através, justamente, da educação, que Martha se liberta e liberta sua mãe da pobreza. Enquanto os Realistas estavam tão preocupados em comprovar a tese do determinismo social, dizendo que o meio determinava o sujeito e que ambientes de muita pobreza empobreciam o caráter humano, Julia nos mostra o caminho da libertação desse destino traçado. Enquanto houver educação, haverá libertação.
    
"A reputação da mulher é essencialmente melindrosa. Como o cristal puro, o mínimo sopro a enturva..."

    Dia desses um aluno me perguntou: "Professora, eu não entendi bem o livro, achei o final muito triste. Ela não casa com o cara que ela gosta, a mãe dela morre, o que era pra ser". Coitado, iniciado tão cedo no universo do realismo literário...
    Pois é, o que era pra ser? Para mim, o livro, sendo triste ou não, é uma história de luta contra as condições subhumanas às quais algumas parcelas da população ficaram sujeitas ao longo da história. É sobre a desigualdade social que foi se intensificando no século XIX e nunca de fato se resolveu. Mas é também sobre a disputa das mulheres de conquistarem um mísero espaço nessa terrível guerra apenas para poderem viver uma vida levemente digna. E é esperançoso, para mim, na medida em que ela consegue esse espaço, consegue sua libertação através da arma mais poderosa - e, por isso mesmo, mais restrita - que a sociedade tem: a educação. E, ao mesmo tempo, é extremamente realista, ao não construir uma falácia do amor perfeito, ao construir um casamento por praticidade e por conhecimento da condição feminina na sociedade. É exatamente aquilo que ele promete ser: realista.

¹O vestibular de 2026 é prestado no ano de 2025. O ano de 2026 é o ano de ingresso daqueles que forem aprovados.

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