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Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis

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  "A obra em si mesma é tudo: se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se não te agradar, pago-te com um piparote, e adeus."     De certo você vai ler essa resenha pensando que é lógico que eu não tenho muito a acrescentar à discussão a respeito desse livro. E realmente, o que mais pode uma pessoa comum dizer sobre o grande clássico de Machado de Assis?     Posso começar refletindo sobre o porquê de esse livro ser o clássico que é. Um dos motivos é claro que é o defunto-autor, uma invenção completamente incomparável a qualquer outro evento literário da época (e, convenhamos, até hoje é difícil apontar alguém que tenha criado algo da mesma magnitude). Um autor que é primeiro defunto, porque passa a ser autor apenas depois de morrer. E como pode que, no livro que representa o movimento literário chamado realismo , o elemento mais essencial da história é fantástico, mágico? E como pode que é justamente esse elemento fantástico que faz com que o livro seja, de...

A cabeça do santo, de Socorro Acioli

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  "Quando se virou para observar o lugar onde estava, com a ajuda da pouca luz do sol encoberto, Samuel percebeu que a gruta onde passou a noite era, na verdade, uma cabeça gigante, oca e assustadora. Uma cabeça de santo."     O realismo mágico sempre tem seus jeitos especiais de entrar no coração de um latino. Pois com esse livro não é diferente. Aquilo que Gabriel García Marquez ensinou para Socorro Acioli na oficina "Como contar um conto" se vê trabalhado com maestria nessa história. O realismo mágico tem algo muito especial e diferente de qualquer outro gênero que trabalha com os limites da realidade, que é justamente o fato de ser sempre muito divertido. E acredito que Acioli saiba muito bem como trazer esse elemento para essa história, que parece, a princípio, ser tão tensa e difícil.     Além disso, acho que muitos livros são construídos com a intenção de serem adaptados ao cinema, e um leitor experiente pode ser muito capaz de ver esses traços em qualque...

Katábasis, de R. F. Kuang

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  "Magia, a mais misteriosa e caprichosa das disciplinas, admirada por seu poder e ridicularizada por sua frivolidade, é, em resumo, o ato de contar mentiras sobre o mundo."     Se você acompanha este blog desde a primeira resenha, você sabe que eu levo a R. F. Kuang muito a sério. O primeiro livro que li dela, A guerra da papoula , me tirou de helicóptero de uma ressaca literária intensa. O segundo que li, Babel , tem sido minha recomendação coringa para qualquer pessoa desde antes mesmo de eu terminá-lo. Cheguei até a emprestar para um aluno, que ficou igualmente impactado pela história. Li também Impostora , que também resenhei este ano. E agora acabei seu lançamento mais recente, Katábasis .     Para quem não sabe, assim como eu antes de ler, o substantivo grego katábasis  significa "a descida de um herói ao submundo". E logo eu, que não sou estranha a Dante Alighieri, fico sempre intrigada por uma boa viagem ao inferno. Viagem essa que, neste livro, se...

Frida Kahlo e as cores da vida, de Caroline Bernard

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"Essas são as duas mulheres que tenho dentro de mim, pensou, enquanto continuava a pincelar a tela de branco. A mulher que quer viver do jeito que lhe convém e a mulher que carrega a carga da tradição e da história."     Quem gosta de julgar um livro pela capa? Pois bem, se você olhar para essa capa toda linda, colorida e cheia de detalhes, deve sentir a maior vontade de ler esse livro. Comigo foi assim, ainda mais quando vi que era a biografia de Frida Kahlo. Mas, como bem pode-se esperar de um livro sobre uma mulher mexicana escrito por uma alemã, não foi bem uma obra prima.     A história de Frida é muito intensa. Logo cedo, aos 6 anos, foi acometida por uma poliomielite, que a deixou com dores crônicas. Aos 18 anos, sofreu um gravíssimo acidente de ônibus no qual seu ventre foi atravessado por uma barra de metal. Por conta desse acidente, passou muitos meses hospitalizada e, mesmo ao receber alta, teve de ficar anos acamada usando um colete de gesso até se recupe...

Três, de Valérie Perrin

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  "Nina era o elo que unia os dois. Sem ela, Adrien e Étienne não se encontravam. Eram três, ou nada."     Há muito tempo, Três  estava na minha lista de leituras. Em qualquer vídeo de recomendação de livros contemporâneos, pode ter certeza que este vai estar lá recomendado e extremamente elogiado por leitores de todo o mundo. Por isso, quando comecei a ler, finalmente, minhas expectativas estavam bem altas. E então você pode pensar que é a pior receita para ler qualquer coisa.     Começamos conhecendo essas três crianças, Nina, Étienne e Adrien, colegas de classe que, por uma sorte do destino, acabam se conhecendo e se tornando amigos. A partir daí, os três são inseparáveis, vivem toda sua infância e adolescência juntos até que a vida os acaba separando. A narração é confusa a princípio porque ela transita entre uma narradora misteriosa em 1ª pessoa, Virginie, que se passa no presente (2018, nem tão presente assim), e uma narração em 3ª pessoa, que acompan...

A paixão segundo G.H., de Clarice Lispector

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  "(...) se eu for adiante nas minhas visões fragmentárias, o mundo inteiro terá que se transformar para eu caber nele."     É notório de ler Clarice Lispector é uma atividade difícil. E é igualmente notório que ler Clarice Lispector não convida críticas ou avaliações. Um livro como este não é como qualquer outro, ele não se preocupa em se organizar para caber em você, leitor, nem em lógicas idealizadas de uma literatura convencional. Para ler Clarice, é preciso, como ela diz, ser uma "pessoa de alma já formada". Seja lá o que isso signifique.     O enredo desse livro pouco importa, ele some ao longo da leitura e reaparece de vez em quando para nos lembrar que havia uma pequena lógica por traz de algo nesse mundo, mas essa lógica se desmancha diante de nós quando tentamos observá-la de perto, agarrá-la, fazer dela objeto. G. H., mulher rica, artista, em um dia qualquer, após demitir sua empregada Janair, decide limpar o fatídico quarto da empregada  em sua ...

"Caminho de pedras" e a frustração da traição

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 [ESTA RESENHA CONTÉM SPOILERS!] [mas também... o livro tem 88 anos, né?] "- Pensou que eu tinha mão de moça rica? Filipe procurou consolá-la com uma brincadeira: - Ora, diz que o mundo do futuro há de ser feito com as mãos assim..."     Um pouco de contexto sobre essa autora tão... confusa.     Rachel de Queiroz foi presa pela Ditadura Vargas, no ano que se inaugura essa página obscura de nossa história. Sua prisão aconteceu dia 28 de outubro de 1937, e foi durante os dois anos de cárcere que ela escreveu Caminho de Pedras . Isso tudo é importante porque a Rachel de Queiroz que lemos aqui não é a Rachel de Queiroz que morreu em 2003. É difícil saber a linha do tempo exata, mas a autora que escreveu este livro era recém ex-membra do Partido Comunista do Brasil e socialista libertária que havia visto seus livros serem queimados por um governo autoritário de cunho anti-comunista.     Então, ao escrever esse livro, Rachel deposita brilhantemente suas crít...