O país do carnaval - Cacau - Suor, de Jorge Amado

 


"A felicidade pertence somente aos burros e aos cretinos. Felizmente, nós somos infelizes."

    Jorge Amado publica seus primeiros romances nessa belíssima coletânea. O país do carnaval  (1931), Cacau (1933) e Suor (1934) são três histórias muito diferentes que abordam, às suas próprias maneiras, um assunto em comum: classe. Não é a toa que a junção destas três curtas histórias faz desse livro uma obra tão coesa e completa. Cada uma das narrativas explora uma diferente perspectiva a respeito da vida no Brasil, considerando em especial as dinâmicas econômicas e sociais que atravessam as vidas das pessoas. E cada uma delas também demonstra um processo interessante de amadurecimento do autor. De maneira delicada e complexa, Jorge Amado constrói narrativas que amargam a boca, embrulham o estômago e apertam o coração.

    O PAÍS DO CARNAVAL

"-- Eu sinto cada vez maior a necessidade de crer...
-- O que não quer dizer que você sinta a necessidade de crer num ser superior. Creia nos homens, nas coisas materiais. (...)"

    Acompanhamos um grupo de personagens homens com diferentes perspectivas de vida. Paulo Rigger, vindo diretamente da França, busca pelo fim -- no sentido de finalidade -- da vida, seu objetivo. Um advogado um tanto frustrado com sua carreira e sua vida na Europa, Rigger acredita que no Brasil encontrará a resposta para sua maior pergunta. Nesse trajeto, encontra com um grupo de amigos, cada qual com uma visão diferente da finalidade maior da vida: um religioso, um cético, um romântico, um filosófico, e por aí vai.
    Ao longo da história, acompanhamos os diversos acontecimentos que levam os personagens principais a questionarem todas suas certezas em relação ao fim da vida. Uma hora acreditam com convicção em uma resposta certa, uma conclusão que chegaram após eventos que marcam suas vidas. Outra hora, deixam cair por terra tudo o que acreditavam saber. E a narrativa se desenrola nessa clássica disputa entre as diferentes formas de enxergar o mundo, até que um dos personagens descobre uma perspectiva que parece dar mais conta dos problemas do que as demais.
    Evidentemente é um romance muito jovem na carreira de Amado, escrito quando o autor tinha apenas 18 anos. Mesmo tão jovem, Amado parece dar conta de uma questão muito característica dos homens de sua época, que tentavam dar razões absolutas à vida, sem de fato explorarem vidas distintas de suas próprias. Já tão novo, Amado parecia ter um olhar aguçado e uma escrita ácida e precisa a respeito de dinâmicas socioeconômicas que dominam nosso mundo até hoje.

CACAU

"Escola! Amélia foi para a escola. Um dia um sujeito, poeta ou qualquer coisa assim, furtou Amélia. Ela foi para a escola. Hoje escreve à gente, conta coisas. Diz que um dia, quando crescer, virá nos ensinar. Nesse dia, quando souberem essas coisas, os meninos não comerão mais jaca. Se levantarão com o tôco do facão em punho... A gente não entendia bem Amélia. Mas acreditava. Um dia..."

    Esta é uma das histórias que mais me marcou, não somente no livro, mas na vida toda. Acompanhamos o protagonista, chamado de Sergipano, que se muda de sua cidade em busca de trabalho em uma fazenda de cacau. Ali, não surpreendentemente, encontra condições sub-humanas de trabalho, muito próximas à escravidão, com todos os homens e mulheres sujeitados à fome, ao trabalho braçal exaustivo e à violência dos patrões. Seguimos o dia-a-dia destes trabalhadores plenamente conscientes de suas condições de exploração, mas igualmente incapazes de modificarem a situação.
    A falta de estudo da maioria não abre espaço para acreditarem que sua condição é justificável. Pelo contrário, Jorge Amado, com apenas 20 anos, consegue descrever a condição desses trabalhadores de maneira complexa, sem infantilizações ou idealizações, mostrando que, na verdade, eles eram plenamente capazes de reconhecer seus grilhões e identificar que a condição em que estavam não era justa. Sua capacidade de análise socioeconômica é tão precisa que ele até mesmo descreve como a exploração do trabalho afeta mulheres diferentemente, e aborda a prostituição com um olhar que muitos hoje mesmo não conseguem ter.

"Pobres mulheres, que choravam, rezavam e se embriagavam na Rua da Lama. Pobres operárias do sexo. Quando chegará o dia da vossa libertação?
Quantos mananciais de carinhos perdidos, quantas boas mães e boas trabalhadoras. Pobre de vós, a quem as senhoras casadas não dão direito nem ao reino do céu. Mas os ricos não se envergonham da prostituição. Contentam-se em desprezar as infelizes. Esquecem-se de que foram eles que as lançaram ali.
Eu fico pensando no dia em que a Rua da Lama se levantar, despedaçar as imagens dos santos, tomar conta das cozinhas ricas. Nesse dia até filhos elas poderão ter."

    O enredo da história se desenrola de uma maneira inesperada, quase como uma paródia de histórias românticas, mas em vez de uma paródia humorística, uma que deixa a sensação de revolta e esperança na construção de um outro mundo, um pouco mais justo. A solidariedade dos trabalhadores é o que dá gás a tantos desenrolares inesperados, que te tiram do eixo. E é essa solidariedade que faz com que esse novo mundo pareça possível.

SUOR

"(...) Mas, quando operários começaram a dizer 'camaradas' a contar sua vida, os seus sofrimentos, as suas explorações, eles prestaram mais atenção. E agora ouviam atentos. Não era mais diversão aquele grito:
-- Proletários de todos os países, uni-vos!
Grito que poderia levá-los à cadeia, fazer com que os surrassem e deportassem, mas que poderia rebentar as cadeias, acabar com as surras e com as deportações."

    É a conclusão natural terminar esta coletânea com Suor. Nessa narrativa, que gostei de chamar para mim mesma de O Cortiço moderno, Amado descreve um cortiço na Bahia repleto de moradores de todos os tipos. A semelhança com a obra de Aluísio Azevedo não termina aí. Assim como o naturalista, Amado também tem um talento especial em descrever como cada um deles sofre as consequências de pertencerem à classe trabalhadora, e às vezes até menos que isso, morando na rua e vivendo de esmola.
    Nessa história não há protagonistas. Cada um tem sua particularidade, seu trabalho e sua forma de viver a vida, e a cada um cabe um destino diferente. O que brilha mais é a forma como Amado consegue compreender as diferentes explorações entre os próprios membros da classe trabalhadora. A proprietária do cortiço explora os inquilinos como um patrão faria com seus empregados, mas ainda sem deixar de pertencer à classe dos que passam fome e fazem o possível para sobreviver. Ainda sem deixar de saber que apenas um passo em falso a derrubaria para a condição dos seus inquilinos, igualmente com fome, calor e medo. Os homens trabalhadores exploram sexualmente as prostitutas que moram ali, sabendo muito bem que, ainda que pertencentes à classe mais baixa, têm na manga esta carta que permite que consigam encontrar um ser ainda mais explorável do que eles: as mulheres.
    Chega a ser quase inacreditável que um rapaz tão jovem seja tão capaz de compreender experiências que nem sequer viveu e nem poderia viver. A história de Suor é mais uma que te faz ter esperanças, mesmo que remotas e distantes, de uma mudança social que partiria da união dessa classe explorada. Mesmo sabendo que os tempos em que Amado escreveu esta obra eram completamente diferentes -- para o bem e para o mal --, saio desse livro com um furor revolucionário. Uma vontade de mudar o mundo.

"O número 68 da Ladeira do Pelourinho  já não dormia. Acordara de repente, seus mil e tantos braços estavam inquietos e suas seiscentas bocas não demorariam a rugir."

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