A República do Dragão [A Guerra da Papoula #2], de R. F. Kuang
"Para qualquer pessoa, uma vida pacífica seria o paraíso. Para nós, seria tortura."
[OBVIAMENTE, essa resenha tem spoilers para quem não leu o livro 1, A Guerra da Papoula. Se você leu esse livro, vá em frente e leia a resenha, mesmo se não tiver lido A República do Dragão.]
Não é normal o que R. F. Kuang faz quando abre um documento no Word e começa a escrever. A única coisa que constantemente paira pela minha cabeça com quase todos os livros dela é: COMO um ser humano conseguiu escrever uma coisa tão complexa? Tão cheia de detalhes? Tão profundamente fantástica e mais profundamente real?
A República do Dragão é o segundo livro da saga d'A Guerra da Papoula, uma trilogia de livros que conta a história de Fang Runin (ou Rin), uma jovem que carrega em si o poder de conjurar fogo, por sua conexão xamanística com a Fênix, deusa do fogo. Se você ficou confuso, leia o primeiro livro e depois volte aqui rs.
Esse livro tem início logo após a segunda guerra da papoula, sobre a qual lemos no primeiro livro. Rin, líder do Cike, comanda os outros xamãs em ataques estratégicos para derrubar a Imperatriz Daji e, consequentemente, seu Império. Ao longo do livro, o principal conflito não é apenas o geopolítico -- que é repleto de personagens dos quais eu mesma mal me lembrava direito e regiões em um mapa que eu também lembrava pouco --, mas também interno para Rin. A protagonista, assombrada pelo fantasma de seu falecido mestre, Altan, navega pelas ações conflituosas que a raiva, o luto, a desesperança e o fogo a levam a tomar.
"Milhares e milhares de speerlieses haviam rezado para o deus em meio ao luto e ao desespero. E a deusa havia reunido aquele sofrimento, o armazenado e o transformado em chamas."
Este livro tem um pouco de tudo para agradar a todos. É fantasia, sim, tem elementos mágicos impressionantes que te tomam pelo estômago. É político, sim, tem estratégias de guerra e conflitos geopolíticos muito espelhados na história real de alguns países asiáticos, como Japão e China. É de ação, sim, tem muitas, muitas, muitas e muitas cenas de batalha. E é também humano, sim, tem sentimentos, conflitos de relacionamentos e reflexões a respeito das relações humanas em meio a situações desesperadoras. É um livro completo.
O que mais me deixou movida pela narrativa não foi nem a estratégia de guerra e nem as cenas de ação. Acredito que a joia narrativa de Kuang esteja mais na complexidade da construção de heroísmo e vilanismo nessa história. A cada momento do livro, você se depara com novos vilões e novos heróis. Pessoas que você acreditou por tanto tempo serem horríveis e jurou de morte com toda a raiva -- junto com Rin -- mostram de repente uma humanidade tão inacreditável que te derrubam do cavalo. E, ao mesmo tempo, pessoas que você amava e queria ver felizes de repente te dão todos os motivos para agradecer o sofrimento que elas viveram até aqui. Não é possível fazer uma leitura simplesmente maniqueísta desse livro, pois a verdade é que, em meio à guerra, todos morrem e todos matam.
Outro ponto que soou como uma caminhada em uma rua familiar em um pesadelo é o povo hesperiano. Este povo é como uma seita religiosa transformada em sociedade. Eles acreditam em sua própria superioridade étnica e acreditam que seus papéis enquanto membros dessa alta casta é impor sua religião às sociedades "menos evoluídas" para que estas sejam libertas do Caos que as domina. Soou familiar? É porque é.
"Os acadêmicos dizem que, como povo abençoado e escolhido do Arquiteto Divino, eles têm a obrigação de pregar para todos os infiéis que encontrarem."
"Os nikaras ainda não evoluíram para alcançar nosso nível. Trata-se de ciência básica; a prova está em sua fisionomia."
"-- Você me enganou mesmo. Mas o Caos é esperto. Pode se disfarçar de racional e benevolente. Pode fazer com que sejamos misericordiosos. -- Ela ergueu a mão para acariciar a lateral do rosto de Rin. -- Mas, no fim, sempre precisa ser caçado e destruído."
Nada é simplesmente casual na escrita de Kuang. Ela sabe muito bem transformar uma fantasia em um reflexo tão coerente do mundo real que você se pega questionando até que ponto isso não é pura História. Ela domina com maestria as relações de gênero, raça, religião e classe e as insere na narrativa não como quem checa uma lista de afazeres, mas como os verdadeiros construtores dos conflitos da humanidade que são. Ela nos leva a entender a complexidade da guerra como quem explica as regras de um jogo, e logo em seguida acende o tabuleiro em chamas e diz "se vira".
"Há centenas de milhares de homens que pegaram machados para afastar a Federação quando ficou claro que não receberíamos ajuda. Eles vão lutar por nós."
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