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Frida Kahlo e as cores da vida, de Caroline Bernard

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"Essas são as duas mulheres que tenho dentro de mim, pensou, enquanto continuava a pincelar a tela de branco. A mulher que quer viver do jeito que lhe convém e a mulher que carrega a carga da tradição e da história."     Quem gosta de julgar um livro pela capa? Pois bem, se você olhar para essa capa toda linda, colorida e cheia de detalhes, deve sentir a maior vontade de ler esse livro. Comigo foi assim, ainda mais quando vi que era a biografia de Frida Kahlo. Mas, como bem pode-se esperar de um livro sobre uma mulher mexicana escrito por uma alemã, não foi bem uma obra prima.     A história de Frida é muito intensa. Logo cedo, aos 6 anos, foi acometida por uma poliomielite, que a deixou com dores crônicas. Aos 18 anos, sofreu um gravíssimo acidente de ônibus no qual seu ventre foi atravessado por uma barra de metal. Por conta desse acidente, passou muitos meses hospitalizada e, mesmo ao receber alta, teve de ficar anos acamada usando um colete de gesso até se recupe...

Três, de Valérie Perrin

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  "Nina era o elo que unia os dois. Sem ela, Adrien e Étienne não se encontravam. Eram três, ou nada."     Há muito tempo, Três  estava na minha lista de leituras. Em qualquer vídeo de recomendação de livros contemporâneos, pode ter certeza que este vai estar lá recomendado e extremamente elogiado por leitores de todo o mundo. Por isso, quando comecei a ler, finalmente, minhas expectativas estavam bem altas. E então você pode pensar que é a pior receita para ler qualquer coisa.     Começamos conhecendo essas três crianças, Nina, Étienne e Adrien, colegas de classe que, por uma sorte do destino, acabam se conhecendo e se tornando amigos. A partir daí, os três são inseparáveis, vivem toda sua infância e adolescência juntos até que a vida os acaba separando. A narração é confusa a princípio porque ela transita entre uma narradora misteriosa em 1ª pessoa, Virginie, que se passa no presente (2018, nem tão presente assim), e uma narração em 3ª pessoa, que acompan...

A paixão segundo G.H., de Clarice Lispector

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  "(...) se eu for adiante nas minhas visões fragmentárias, o mundo inteiro terá que se transformar para eu caber nele."     É notório de ler Clarice Lispector é uma atividade difícil. E é igualmente notório que ler Clarice Lispector não convida críticas ou avaliações. Um livro como este não é como qualquer outro, ele não se preocupa em se organizar para caber em você, leitor, nem em lógicas idealizadas de uma literatura convencional. Para ler Clarice, é preciso, como ela diz, ser uma "pessoa de alma já formada". Seja lá o que isso signifique.     O enredo desse livro pouco importa, ele some ao longo da leitura e reaparece de vez em quando para nos lembrar que havia uma pequena lógica por traz de algo nesse mundo, mas essa lógica se desmancha diante de nós quando tentamos observá-la de perto, agarrá-la, fazer dela objeto. G. H., mulher rica, artista, em um dia qualquer, após demitir sua empregada Janair, decide limpar o fatídico quarto da empregada  em sua ...

"Caminho de pedras" e a frustração da traição

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 [ESTA RESENHA CONTÉM SPOILERS!] [mas também... o livro tem 88 anos, né?] "- Pensou que eu tinha mão de moça rica? Filipe procurou consolá-la com uma brincadeira: - Ora, diz que o mundo do futuro há de ser feito com as mãos assim..."     Um pouco de contexto sobre essa autora tão... confusa.     Rachel de Queiroz foi presa pela Ditadura Vargas, no ano que se inaugura essa página obscura de nossa história. Sua prisão aconteceu dia 28 de outubro de 1937, e foi durante os dois anos de cárcere que ela escreveu Caminho de Pedras . Isso tudo é importante porque a Rachel de Queiroz que lemos aqui não é a Rachel de Queiroz que morreu em 2003. É difícil saber a linha do tempo exata, mas a autora que escreveu este livro era recém ex-membra do Partido Comunista do Brasil e socialista libertária que havia visto seus livros serem queimados por um governo autoritário de cunho anti-comunista.     Então, ao escrever esse livro, Rachel deposita brilhantemente suas crít...

No seu pescoço, de Chimamanda Ngozi Adichie

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  "Não vou à igreja; parei de ir depois da primeira visita de Ebere, porque não tinha mais incertezas. É nossa desconfiança com a vida após a morte que nos leva à religião. Por isso, aos domingos, eu me sento na varanda, observo os abutres pisando no meu telhado e imagino que eles estão me espiando, intrigados."     A literatura de Chimamanda Adichie nunca passa por mim sem deixar seus rastros. Da primeira vez que li um livro dela, Americanah , fiquei tão impactada por seu jeito quase artesanal de fazer literatura que até hoje encontro seus vestígios em outras experiências literárias. Quando menos espero, em livros de tantos outros temas, enredos e formas de narração, encontro ali aquela memória literária de quando, aos 20 anos, tive o prazer de conhecer sua escrita.     No seu pescoço  é uma coletânea de 12 contos que abordam assuntos diversos, sempre por uma perspectiva de personagens nigerianos tomados por algum evento que os faz encarar suas próprias hi...

Persépolis, de Marjane Satrapi

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  "Claro que, mesmo com todas essas ameaças, as festas continuavam. Alguns diziam: 'Para poder suportar psicologicamente...', e outros completavam: 'Sem festa, pode encomendar nossos caixões'."     Persépolis é o nome que se deu à Cidade Persa ainda na antiguidade. Hoje, as ruínas desse lugar são consideradas patrimônio mundial pela UNESCO e simbolizam um poderoso registro histórico da antiga Pérsia, atual Irã. Mas a história de Marjane Satrapi acontece em anos muito mais recentes com a guerra entre Irã e Iraque, iniciada nos anos 1980, nesse mesmo cenário de ruínas e conflitos.     Através de uma belíssima história em quadrinhos, Marjane relata como sua vida mudou quando um governo autoritário teocrático tomou conta de seu país, Irã, e passou a ditar exatamente como as pessoas deveriam viver suas vidas. As mulheres, que até então se vestiam como queriam, se viram obrigadas a usarem véus e até chador  , uma roupa que cobre completamente seu corpo e deixa vi...

As Meninas, de Lygia Fagundes Telles

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  "Para que eu seja assim inteira (essencial e essência) é preciso que não esteja em outro lugar senão em mim."     As Meninas  é um sufoco. Quando li pela primeira vez era pandemia, li com minhas amigas em um clube do livro e precisei da primeira reunião para entender que as narradoras eram três pessoas diferentes. Agora, nessa releitura, vejo o quanto esse livro me marcou e, ao mesmo tempo, o quanto perdi dele na primeira vez. Percebo, agora, que esse livro é um livro de estante, um para ter guardado por toda sua vida e para ser revisitado de tempos em tempos. É um livro para ir saboreando com os anos, degustando, decantando. Parece que, à medida em que eu amadureço, o livro amadurece junto.     Lygia Fagundes Telles é uma joia rara que temos o prazer de ler em sua língua original. Em um país que tem Machado de Assis, Jorge Amado e Clarice Lispector, parece inacreditável que tenhamos ganhado em tantas loterias literárias a ponto de termos também a Lygia. ...