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Ainda estou aqui, de Marcelo Rubens Paiva

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  "(...) quando nos levam ao berço e apagam a luz, temos medo de tudo isso sumir e nunca mais voltar: por isso choramos até cansar."     Nunca tinha lido Marcelo Rubens Paiva. Eu sei que Feliz ano velho  foi um livro decisivo na vida de tanta gente ao meu redor e sei também que o Marcelo é da Unicamp, assim como eu, o que só faz com que essa falta de leitura de minha parte seja ainda mais injustificável. Também sei (agora) que Marcelo viveu em 3 das cidades que tanto são presentes na minha vida: Campinas, pois cresci aqui e aqui vivo, São Paulo, pois é a melhor forma de fugir de Campinas, e Rio de Janeiro, cidade que meu coração escolheu amar tão, tão cedo.      Na verdade, eu nem tinha uma verdadeira noção de quem era o Marcelo para a além de autor-de-um-livro-que-não-li. Foi em 2024, quando começou-se o burburinho sobre o filme Ainda Estou Aqui, dirigido por Walter Salles, que atinei para este autor que eu estava lamentavelmente deixando passar despe...

A corneta, de Leonora Carrington

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  "... eu nunca sofro de solidão. Sofro muito com a ideia de que minha solidão possa ser tirada de mim por um monte de pessoas impiedosamente bem-intencionadas."     Nada pode te preparar para o desenrolar dessa história. A ficção surrealista de Leonora Carrington é um embarque em um sonho febril do qual não há sentido acordar.      Tenho tido, por coincidência, uma fase literária muito peculiar. Tenho lido em sequência livros que contam histórias de pessoas velhas muito excêntricas e bastante incompreendidas pelo mundo ao redor. Começou com Leite derramado , do Chico Buarque, então li Sobre os ossos dos mortos , de Olga Tokarczuk e, agora, A corneta . Essa sequência transcontinental fez mais sentido do que eu seria capaz de prever, não apenas pela idade semelhante dos personagens principais, mas justamente pelas perspectivas tão diversas sobre figuras tão excêntricas. E, para amarrar tudo lindamente, Tokarczuk faz um belíssimo posfácio para A corneta , que...

Sobre os ossos dos mortos, de Olga Tokarczuk

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  "(...) todos nós seremos um dia nada mais que um corpo morto."      É com esse tom dolorosamente realista que Olga Tokarczuk inicia sua obra laureada pelo prêmio Nobel. E é desde sua abertura sombria que amarra o leitor à trama completamente. Uma trama solitária, isolada em meio às montanhas polacas que reúne alguns dos elementos mais intrigantes da literatura: uma narradora nada confiável e excêntrica, mortes misteriosas, um mistério a ser desvendado e animais agindo de maneira inusitada.     Sra. Dusheiko, narradora e protagonista, é acordada no meio da noite por seu vizinho, a quem ela chama de Esquisito, para ir à casa de seu outro vizinho, Pé Grande, porque ele está morto. Nessa empreitada, Dusheiko descobre que a causa de sua morte foi um engasgamento com o osso de uma corça, animal que ele frequentemente caçava. Para ela, uma senhora excêntrica, defensora dos animais e fiel aos mapas astrais, a morte de Pé Grande nada pode ser se não uma vingança d...

Leite derramado, de Chico Buarque

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  "Veja só, neste momento olho para você, que toda noite está comigo tão amorosa, e fico até sem graça de perguntar seu nome de novo."     Minha história com esse livro não começa em mim. Desde pequena, me lembro de ver esse livro na cabeceira de minha mãe, ou em sua estante. O título me pareceu desde sempre muito característico dela, já que sempre trabalhou com amamentação, e as temáticas do leite, da mamadeira, da forma correta de segurar o bebê no processo, do bico, da deglutição, etc. são assuntos recorrentes em casa. Então, na verdade, minha impressão primeira desse livro era de pensar que Chico Buarque de repente virara um especialista em amamentação.     Também sempre fui apaixonada pelo Rio de Janeiro. Aos 10 anos visitei-o pela primeira vez, aos 15 voltei como presente de aniversário, então aos 23 voltei mais uma vez com uma amiga para uma viagem que não foi lá a melhor dos mundos (Gabi, ainda te devo uma volta ao Rio que faça jus à cidade). Mas, ainda ...

A cor púrpura, de Alice Walker

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  " ⁠Todo mundo quer ser amado. A gente canta e dança, faz careta e dá buquê de rosa, tentando ser amado. Você já reparou que as árvore fazem tudo que a gente faz pra chamar atenção, menos andar?"     A cor púrpura  é um livro epistolar, o que significa que ele é narrado por meio de cartas. A princípio, Celie, a protagonista, escreve dirigindo-se a Deus, e, com uma escrita tão simples e repleta de desvios à norma-padrão (coisa com a qual ela nunca pôde ter contato), conta suas angústias vivendo com seu pai, que abusa sexualmente dela e maltrata sua mãe e sua família; até que sua mãe morre (isso acontece literalmente na página 11, não é spoiler). Celie, então, é forçada a casar-se com o Sinhô ____ (essa é a forma como ela escreve seu nome ao longo de quase o livro todo) e criar os filhos dele inteiramente sozinha, sem afeto e amor por ele ou pelos filhos. Sinhô ____, incomodado desde o princípio com a relação de Celie com sua irmã Nettie, a proíbe de vê-la e contatá-l...

Maus, de Art Spiegelman

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  "Tanta coisa eu nunca vou conseguir entender nem visualizar. É que a realidade é complexa demais para ser contada em quadrinhos..."      Maus é o livro que inaugura minhas leituras de 2025. Começo o ano com um tipo de livro que há anos não lia: quadrinhos. Mas não estamos falando de Homem-Aranha (o que não seria nada mal, inclusive, o último quadrinho que eu havia lido antes desse foi um dele). E este livro é interessante, ainda mais à primeira vista. Pode até ser que a capa dele te assuste, te faça pausar e pensar: "será que é isso mesmo que eu estou vendo?". É, é sim.     Esse livro conta a história de Vladek Spiegelman, pai do autor do livro, Art. Vladek era um homem judeu polonês que foi vitimado pelo holocausto, mas conseguiu sobreviver (o que não é uma vitória , mas uma sorte do destino, e já vamos ver o porquê), e seu filho pede que ele conte sua história para ser ilustrada e publicada. Vladek é um homem de personalidade antiga, bastante avarento ...

Emma, de Jane Austen

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  "I suppose there may be a hundred different ways of being in love."      Amantes de Jane Austen, espero que não me julguem pelo que vou dizer. Eu odiei esse livro.     Li Jane Austen pela primeira vez há alguns anos, ainda na pandemia. Comecei por Orgulho e Preconceito , amei, decidi ler mais, li Persuasão, Razão e Sensibilidade  e, agora Emma . Desde Persuasão , comecei a sentir que não entendia muito bem o porquê de as pessoas amarem tanto. O que não significa que não entendo a importância dos seus livros para a literatura, em especial para entender o espaço minúsculo e ínfimo que foi dado às mulheres para fazê-la. É evidente que seus livros têm o diferencial na maneira de construir suas personagens femininas, que são cheias de personalidade, autênticas, que não aceitam se casar por interesses, etc., e que a forma de descrever a sociedade da época é muito crítica e ironiza os pensamentos burgueses, marcados por interesses, relações falsas e exagera...