Sobre os ossos dos mortos, de Olga Tokarczuk

 


"(...) todos nós seremos um dia nada mais que um corpo morto."

    É com esse tom dolorosamente realista que Olga Tokarczuk inicia sua obra laureada pelo prêmio Nobel. E é desde sua abertura sombria que amarra o leitor à trama completamente. Uma trama solitária, isolada em meio às montanhas polacas que reúne alguns dos elementos mais intrigantes da literatura: uma narradora nada confiável e excêntrica, mortes misteriosas, um mistério a ser desvendado e animais agindo de maneira inusitada.
    Sra. Dusheiko, narradora e protagonista, é acordada no meio da noite por seu vizinho, a quem ela chama de Esquisito, para ir à casa de seu outro vizinho, Pé Grande, porque ele está morto. Nessa empreitada, Dusheiko descobre que a causa de sua morte foi um engasgamento com o osso de uma corça, animal que ele frequentemente caçava. Para ela, uma senhora excêntrica, defensora dos animais e fiel aos mapas astrais, a morte de Pé Grande nada pode ser se não uma vingança das corças pelas suas caçadas. Enfim, após tantos anos de sofrimentos, os animais finalmente se rebelaram e resolveram retaliar!
    Logo passam a acontecer mais e mais assassinatos estranhos, sempre com algum dos caçadores mais influentes da cidade. Dusheiko tenta constantemente alertar a polícia a respeito da mobilização dos animais, afinal, Saturno está na 8ª casa e a vítima tinha Vênus em Sagitário, era completamente previsível. Mas, como a polícia sempre faz um grande esforço para não ouvir delírios de senhoras malucas, ela é sempre ignorada e rejeitada.
    
"Cada fragmento do mundo, até o menor deles, está interligado com os outros através de um complexo cosmos de correspondências, onde uma mente simplória dificilmente penetra."

    No entanto, Dusheiko é uma narradora apaixonada por suas próprias visões de mundo. Ela defende a si mesma e aos seus companheiros de vida com unhas e dentes, a ponto de cegar-se às formas como as outras pessoas podem enxergar o mundo. E isso a torna o tipo mais intrigante de narrador: a narradora parcial, não confiável. 
    Nesse pequeno detalhe, que pode facilmente passar despercebido pelo leitor, é onde mora a narrativa. O livro faz um brilhante jogo entre aquilo que aconteceu e aquilo que foi narrado, e o leitor precisa garantir que tem uma enorme astúcia para pescar as dicas que a própria narradora te dá involuntariamente.
    Não é um livro de investigação, mas é misterioso e te leva a refletir sobre a forma como o homem (não o ser humano, o homem, mesmo) acredita em sua própria superioridade e se põe acima de todos os seres como bem entende. É uma ironia saborosa observar como se cumprem os destinos sangrentos dos caçadores, destinos que eles próprios impunham aos animais que violentamente matavam. E, mesmo assim, observar como essas ações também têm consequências inesperadas.
    É uma história de violência, mas também de reparação. É apenas um destino cósmico que cumpriu-se como qualquer outro... Ou, será que...

"- Sabe, às vezes tenho a impressão de que vivemos num mundo que nós mesmos projetamos. Determinamos o que é bom e o que é ruim, desenhamos mapas de significados... E depois, durante a vida inteira, lutamos contra aquilo que concebemos. O problema é que cada um tem a sua própria versão, por isso é tão difícil as pessoas chegarem a um acordo."

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