A corneta, de Leonora Carrington
"... eu nunca sofro de solidão. Sofro muito com a ideia de que minha solidão possa ser tirada de mim por um monte de pessoas impiedosamente bem-intencionadas."
Nada pode te preparar para o desenrolar dessa história. A ficção surrealista de Leonora Carrington é um embarque em um sonho febril do qual não há sentido acordar.
Tenho tido, por coincidência, uma fase literária muito peculiar. Tenho lido em sequência livros que contam histórias de pessoas velhas muito excêntricas e bastante incompreendidas pelo mundo ao redor. Começou com Leite derramado, do Chico Buarque, então li Sobre os ossos dos mortos, de Olga Tokarczuk e, agora, A corneta. Essa sequência transcontinental fez mais sentido do que eu seria capaz de prever, não apenas pela idade semelhante dos personagens principais, mas justamente pelas perspectivas tão diversas sobre figuras tão excêntricas. E, para amarrar tudo lindamente, Tokarczuk faz um belíssimo posfácio para A corneta, que contribuiu enormemente com minhas interpretações dessa história tão bizarramente interessante.
"As pessoas acima dos sete e abaixo dos setenta não são nada confiáveis, a menos que sejam gatos."
O livro se abre com a protagonista, Marian Leatherby, contando-nos sobre um presente que recebeu de sua amiga, Carmella (minha personagem favorita): uma corneta que a faria escutar, já que Marian é surda. Desde essa introdução, o livro deixa claro ao leitor que ali não é um espaço para racionalismos, e, sim, para a aceitação plena de tudo que virá (e virão muitas coisas).
Marian, uma mulher de noventa e dois anos, é bastante convicta de seus desejos e vontades, especialmente de seu maior sonho de ir à Lapônia e de seu amor por seus animais de estimação. Ela vive com sua família, que há tempos a vê como um fardo. Com sua corneta, Marian descobre que eles pretendem levá-la a um lar de idosas, onde certamente não atrapalhará suas vidas. Carmella e Marian ficam desesperadas com esse desenrolar, já que um lar de idosas certamente haveria de ser como uma prisão de tortura, onde ninguém que entra jamais sairá, onde cães policiais vigiam as portas, sua comida é racionada, as cartas e encomendas são censuradas e confiscadas e qualquer comunicação seria contaminada pelas pílulas da verdade.
No entanto, ao chegar lá, Marian vê que a Instituição, apesar de autoritária, não é bem como elas haviam imaginado. Logo ela se aproxima das outras senhoras moradoras dali, que são, no mínimo, igualmente excêntricas. Cada uma delas, com suas personalidades geniosas e muito divertidas, traz à história um novo sabor, como a mistura de temperos em um grande cozido.
"'Então veja você', ela continuou, 'a felicidade não é reservada para os jovens. Não há ninguém que possa fazer você feliz, você deve cuidar desse assunto sozinha."
É muito desafiador escrever sobre esse livro, apesar de não ser uma leitura difícil. Carrington pinta como um quadro uma história tão insana que chega a ser absurdo não achá-la perfeitamente normal. O enredo surrealista, ao mesmo tempo que é uma paródia hilária de histórias religiosas antigas e absurdas, é também poesia pura. daquelas que falam diretamente com a alma. Nesse caminho sinuoso e cheio de magia, fico assombrada pela quantidade de realidade que cabe em uma fantasia.
Não é apenas uma história sobre senhoras malucas se revoltando contra um sistema autoritário (mas é, também). É uma história sobre o abandono de mulheres idosas na sociedade patriarcal que não vê mais uso para alguém como elas, é sobre a união feminina em meio a esse abandono. É sobre amizade, sobre ódio, sobre autoamor, sobre sonhos e desejos. É um livro tão completo, tão cheio de tudo, que até os elementos mais surreais parecem ser pequenos átomos em um cosmos tão infinito. É uma história que nos ensina a abraçar a excentricidade que nos faz quem somos.
"Se a velha não pode ir à Lapônia, que a Lapônia venha até a Velha."
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