A cor púrpura, de Alice Walker
"Todo mundo quer ser amado. A gente canta e dança, faz careta e dá buquê de rosa, tentando ser amado. Você já reparou que as árvore fazem tudo que a gente faz pra chamar atenção, menos andar?"
A cor púrpura é um livro epistolar, o que significa que ele é narrado por meio de cartas. A princípio, Celie, a protagonista, escreve dirigindo-se a Deus, e, com uma escrita tão simples e repleta de desvios à norma-padrão (coisa com a qual ela nunca pôde ter contato), conta suas angústias vivendo com seu pai, que abusa sexualmente dela e maltrata sua mãe e sua família; até que sua mãe morre (isso acontece literalmente na página 11, não é spoiler). Celie, então, é forçada a casar-se com o Sinhô ____ (essa é a forma como ela escreve seu nome ao longo de quase o livro todo) e criar os filhos dele inteiramente sozinha, sem afeto e amor por ele ou pelos filhos. Sinhô ____, incomodado desde o princípio com a relação de Celie com sua irmã Nettie, a proíbe de vê-la e contatá-la. Dessa forma, Celie se vê isolada em meio a uma família que não quer e que não a quer, vivendo com um marido violento por quem ela nutre ódio e tendo que se submeter à criação dessas crianças e manutenção dessa casa.
Até que, um dia, Shug Avery, uma ex-namorada de Sinhô ____, chega na casa deles muito doente, e cabe à Celie cuidar dela até que se recupere. Shug é uma mulher excêntrica, muito criticada pelos homens e mulheres que a conhecem por ser cantora, viajar o país para cantar e não se sujeitar aos tradicionais papeis de gênero (casamento, filhos, dona de casa...). E é claro que Celie se apaixona por ela.
As cartas de Celie constroem um enredo íntimo e pessoal, envolvendo o leitor em cada trama e subtrama dessa narrativa. Ao falar com Deus, Celie desabafa profundamente sobre todas as personagens que fazem parte de sua vida e nos mostra, sob sua perspectiva própria, as sutilezas e complexidades de cada um. Não há, aqui, personagens maquiavélicos, simplesmente bons ou ruins, mas personagens complexos, atravessados por dinâmicas sociais profundas e interligadas. E, desde suas raças, classes, gêneros, religiões, sexualidades e nacionalidades, vemos o enredamento daquilo que forma seres humanos tão diversos e tão semelhantes entre si.
"(...) Eu acho que Deus deve ficar fora de si se você passa pela cor púrpura num campo qualquer e nem repara.
E o que ele faz quando tá fora de si? eu perguntei.
Ah, ele faz outra coisa. As pessoa acham que agradar a Deus é tudo que interessa a ele. Mas qualquer idiota no mundo pode ver que ele sempre tá é tentando agradar a gente de volta."
Esse livro é sobre o amor entre mulheres. É sobre muitas outras coisas também: racismo, misoginia, família, colonização, violência, ódio, preconceito, religião, fé, enfim. Mas, no fim mesmo, aquilo que transborda o livro e o faz fluir é o amor entre mulheres, a compaixão, a parceria. Não é só a relação sexual-romântica entre mulheres, o que também se inclui nesse tema e é de extrema importância, mas é sobre um amor mais amplo, quase divino, que liga todas as mulheres da trama. Todas elas, de alguma forma, falham em serem aquilo que elas devem ser, mas, o tempo todo, a união entre elas é o que as liberta, de uma forma ou de outra, dessas amarras. É um livro pura e verdadeiramente feminista.
Alice Walker confecciona uma trama tão complexa e profunda que em nenhum momento te deixa esquecer de que todos os personagens são cruzados por intersecções que não os permitem deixar de lado quem eles são perante os outros. E, nesse processo, te força a encarar quem você é em meio a isso tudo também, não de forma dicotômica homem-mulher negro-branco rico-pobre. Não, ali você é forçado a se ver um pouco em todos, no bem ou no mal. Daí surge tanta empatia e conexão com essas personagens, especialmente com as mulheres. Até mesmo as que são, a princípio, antagônicas, maldosas, invejosas, na verdade se tornam figuras complexas, cheias de personalidade, figuras pelas quais você torce e para quem você deseja o melhor dos finais.
"Shug olhou para mim e a gente riu. Aí a gente começou a dar risada. Então a Tampinha começou a rir. Depois a Sofia. A gente quase morreu de rir."
Logo no comecinho do livro, quando vi a forma como Celie escrevia suas cartas, eu achei que seria um livro do tipo Flores para Algernon (que eu amo), no qual a personagem teria contato com algum tipo de educação formal ou alguém que a ensinasse a escrever de acordo com a norma-padrão, e sua escrita se modificaria ao longo do livro. Ledo engano, a escrita estilizada de Celie é justamente um dos detalhes mais importantes do livro, é a forma como sua identidade é construída ali. Se há mudança em seu estilo, é muito sutil e acontece sem alardes. A trama, tão pungente, não acontece independentemente desse fator linguístico, e, sim, este é um dos infinitos detalhes que moldam Celie como personagem.
Por fim, acho interessante destacar que esse livro me lembrou muito A vida invisível de Eurídice Gusmão, de Martha Batalha, o que me fascina muito, já que as obras são separadas por 34 anos, foram produzidas em países diferentes, com línguas diferentes e culturas diferentes. E, mesmo assim, elas se conectam lindamente através daquilo que é principal em ambas: o amor entre mulheres. Nunca canso de me deslumbrar com as maravilhas da literatura, com a forma como ela nos mostra que qualquer pessoa, em qualquer lugar do mundo e em qualquer tempo da história sempre tem algo em comum com as outras.
"Minha pele é escura. Meu nariz é apenas um nariz. Meu lábio é só lábio. Meu corpo é só um corpo de mulher passando pelas mudanças da idade. Nada especial aqui para alguém amar. Nada de cabelos enrolado cor de mel, nada de bunitinho. Nada de novo ou jovem. Mas meu coração deve ser novo e jovem pois parece que ele floresce com a vida."
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