Leite derramado, de Chico Buarque
"Veja só, neste momento olho para você, que toda noite está comigo tão amorosa, e fico até sem graça de perguntar seu nome de novo."
Minha história com esse livro não começa em mim. Desde pequena, me lembro de ver esse livro na cabeceira de minha mãe, ou em sua estante. O título me pareceu desde sempre muito característico dela, já que sempre trabalhou com amamentação, e as temáticas do leite, da mamadeira, da forma correta de segurar o bebê no processo, do bico, da deglutição, etc. são assuntos recorrentes em casa. Então, na verdade, minha impressão primeira desse livro era de pensar que Chico Buarque de repente virara um especialista em amamentação.
Também sempre fui apaixonada pelo Rio de Janeiro. Aos 10 anos visitei-o pela primeira vez, aos 15 voltei como presente de aniversário, então aos 23 voltei mais uma vez com uma amiga para uma viagem que não foi lá a melhor dos mundos (Gabi, ainda te devo uma volta ao Rio que faça jus à cidade). Mas, ainda assim, a paixão pela cidade maravilhosa só crescia mais e mais. Enfim, em 2024 voltei mais uma vez ao Rio com meu namorado e tive, pela primeira vez, a oportunidade de conhecer profundamente a cidade, o Rio antigo, o Rio moderno, o Rio que, como adulta, consigo verdadeiramente apreciar.
Foi durante essa viagem que minha mãe, em nossas conversas diárias de atualizações sobre o Rio, me insistiu que, quando eu chegasse, eu lesse o livro. Chegando em Campinas, ela me entregou o livro e me contou a história: visitando Portugal, na livraria Bertrand, ela comprou um exemplar do livro, 2ª edição, e leu durante sua viagem. E se apaixonou, como é comum com qualquer obra de arte feita pelo Chico. Eis que, uns 16 anos depois, ela me deu sua cópia do livro. Então aqui estou, com minha impressão completamente enviesada logo de cara desse livro que tinha tantas qualidades antes mesmo de se abrir.
"Seria até cômico, eu aqui, todo cagado nas fraldas, dizer a vocês que tive berço."
Leite derramado é o monólogo de Eulálio Assumpção, um senhor de cem anos, em seu leito de hospital, recontando sua história de vida para sua filha e para as enfermeiras que aparecem para cuidar dele. Talvez você imagine pelo nome do personagem, mas ele faz questão de reafirmar ao longo da história diversas vezes, que é um homem "de berço". Eulálio foi criado em uma família tradicional carioca, muito rica e aristocrática, com altíssimas relações políticas e muito bem posicionadas na alta sociedade ali. Isso cem anos antes. No presente, a decadência é evidente, a família perdeu as riquezas que uma vez possuía e o patriarca observou sua descendência se afastando dos entornos onde ele próprio foi criado. Será que na verdade adianta chorar pelo leite derramado?
Com um tom bastante machadiano, vemos em mais uma forma de expressão artística a habilidade de Chico Buarque com as palavras, especialmente aquelas ácidas, críticas, irônicas. Em alguns momentos é até perceptível que ele se divertia com aquilo que escreveu, e você se sente convidado a se divertir com ele. O destino de cada personagem, a forma como se apresentam as minúcias dos relacionamentos nada românticos, os resultados das ações de cada um. Tudo culmina em uma obra divertida e fluida, com uma leitura dinâmica que não te exaure.
Para mim, o ponto mais intrigante da história é justamente esse narrador parcial (que lembra muito o Bentinho) que conta e reconta as mesmas histórias mil vezes, que se perde nos fatos, que tenta enviesar a história para seu benefício, mas esta acaba sendo uma empreitada inútil. E, além de tudo, sempre tenta deixar claro que é um homem de grande influência, mesmo que, a essa altura, ninguém realmente dê a mínima para isso.
"(...) e quando o caixão bateu com peso no fundo da tumba, o baque abafado me soou como o fim da linha dos Assumpção."
Mas então o que tem tanto a ver essa história da relação do livro com a minha mãe e com o Rio de Janeiro? Em primeiro lugar, pra você, leitor, a não ser que você seja minha mãe, provavelmente nada demais. A relação que tem, para mim, é o prazer de finalmente desbravar uma leitura que me intrigava na sua cabeceira e reconhecer bem aquilo que é tão especial para minha mãe nela; ver os trechos que ela destacou e pensar no porquê daquilo ter sido destacado por ela. E o processo inverso também, destacar trechos que eu achei interessantes que ela não destacou, deixar minha marca de leitura na obra. Conversar sobre isso com ela e construir, através da literatura, mais uma conexão profunda com alguém em minha vida.
E, quanto ao Rio de Janeiro, é simplesmente uma paixão pessoal que tenho por ler livros que se passam em lugares onde eu estive. Para alguém que conheceu o Rio como eu conheci nesta última visita, foi um prazer inexplicável viajar pelo Rio velho através dessa narrativa em conjunto com minha memória tão fresca daquele lugar.
"É para si próprio que um velho repete sempre a mesma história, como se asim tirasse cópias dela, para a hipótese de a história se extraviar."
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