Maus, de Art Spiegelman

 


"Tanta coisa eu nunca vou conseguir entender nem visualizar. É que a realidade é complexa demais para ser contada em quadrinhos..."

    Maus é o livro que inaugura minhas leituras de 2025. Começo o ano com um tipo de livro que há anos não lia: quadrinhos. Mas não estamos falando de Homem-Aranha (o que não seria nada mal, inclusive, o último quadrinho que eu havia lido antes desse foi um dele). E este livro é interessante, ainda mais à primeira vista. Pode até ser que a capa dele te assuste, te faça pausar e pensar: "será que é isso mesmo que eu estou vendo?". É, é sim.
    Esse livro conta a história de Vladek Spiegelman, pai do autor do livro, Art. Vladek era um homem judeu polonês que foi vitimado pelo holocausto, mas conseguiu sobreviver (o que não é uma vitória, mas uma sorte do destino, e já vamos ver o porquê), e seu filho pede que ele conte sua história para ser ilustrada e publicada. Vladek é um homem de personalidade antiga, bastante avarento (coisa que preocupa Art ao retratá-lo, já que ele não quer que ele se torne uma personificação do estereótipo de "judeu avarento", mas ao mesmo tempo quer fazer uma representação fiel de quem de fato era seu pai) e um tanto obsessivo quanto a seus pertences, sua organização e sua forma de levar a vida. O livro nos convida a observar intimamente e simultaneamente seu terrível passado e seu presente mundano, já que acompanhamos as conversas entre Art e Vladek enquanto este conta àquele sua experiência antes, durante e após Auschwitz; conversas essas que são interrompidas pelo cotidiano urgente de ambos.
    Você, assim como eu, pode ter uma noção bastante geral e sensível sobre o holocausto e seus horrores, mas este livro traz uma abordagem diferente, profunda, íntima. É quase como se você estivesse ali observando tudo acontecer, incapaz de fazer qualquer coisa para parar as engrenagens do tempo e impedir aquilo tudo de suceder. A combinação do relato de Vladek e dos desenhos de Art constrói uma obra extremamente sensível e angustiante, na qual você acompanha intimamente o genocídio e suas mínimas e máximas ramificações até que você entenda muito mais profundamente elementos desse momento que talvez você nunca tenha sequer pensado a respeito.

"- Meu Deus... Me ajude a achar barbante e um sapato que sirva!
Mas Deus não ia lá. Nós estar sozinho"

    Este livro brilhantemente nos mostra pessoas reais que foram sujeitas a uma atrocidade tão imensa que é incompreensível para quem não a viveu. Art constantemente se equilibra em uma balança de alívio por não ter vivido tudo isso e culpa por... não ter vivido tudo isso, como tanta gente em sua vida. Vladek e Anja (sua mãe) são caracterizados ao longo da história com suas personalidades verdadeiras, com seus defeitos, qualidades, visões de mundo, preconceitos, até seus sotaques, tudo que todas as pessoas no mundo têm. E é aqui que o livro te machuca com precisão: é em perceber que todas as vítimas desse genocídio (e de todos os outros: Palestina livre!) são pessoas que foram tiradas cruelmente de suas casas, de suas famílias e amigos, de seus trabalhos, de seus cotidianos comuns para serem brutalmente assassinadas, violentadas, escravizadas, e por aí vai.
    Nós não precisamos que o pai de Art seja um homem perfeito, e ele não é, para entender que o que foi tirado dele foi muito mais do que posses. O genocídio anula tudo de um ser humano, tira sua casa, mata sua família, violenta seu corpo, explora seus recursos e ainda por cima tenta se justificar com essencialismos e eugenia. E a crueldade maior é entender, finalmente sentir, de fato, que todos os 6 milhões de judeus que foram mortos no holocausto¹, os 4 milhões de africanos trazidos em tráfico humano para o Brasil² (sem contar os que foram levados a outros países, ou os que nasceram depois, mas nessas condições), ou as 46 mil (aproximadamente) pessoas mortas na Palestina³ não são apenas números. Parece óbvio, eu sei, mas é comum se dessensibilizar com números gigantescos que parecem que não significam nada, de fato. Mas cada uma dessas pessoas tinha um nome, uma casa, uma família, uma rotina de vida, uma música favorita, um medo, um sonho, uma vontade, um preconceito, um ódio. Todas essas pessoas, assim como eu e você, tinham uma vida, que lhes foi roubada, violada e destroçada. E os que têm a mera sorte de sobreviverem a isso, carregam consigo o peso de ter que reconstruir toda a mundaneidade da vida com a cabeça repleta de memórias nada mundanas daquilo que viveram ou deixaram de viver.

"- Então considera admirável sobreviver. Então NÃO sobreviver NÃO é admirável?
- A-acho que estou entendendo. Se vida significa vitória, morte significa derrota.
- É. A vida sempre toma o partido da vida, e as vítimas levam a culpa. Mas não foram os MELHORES que sobreviveram ou morreram. Foi ALEATÓRIO!"

    Recomendo esse livro fortemente, sem ressalvas, a todos. Especialmente neste momento em que vivemos, em que a ascenção do fascismo não é só mais um perigo distante, mas uma realidade paupável. É preciso entender que, apesar de os horrores do holocausto serem únicos, as tentativas de refazê-lo não são.

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