"O Morro dos Ventos Uivantes", de Emily Brontë

 


"(...) Como você conseguiu preservar as afinidades comuns à natureza humana quando residiu aqui?"

    Imagino que esse trecho não pareça, à primeira vista, tão representativo assim de um clássico romance inglês do século XIX. Afinal, como dizem as sinopses deste livro que encontramos por aí, essa é uma história de um amor que "transcende a vida", ou de uma "paixão avassaladora". Não é bem assim, e acho que esse trecho que eu selecionei para introduzi-lo é, na verdade, bem mais significativo do que parece.
    Somos jogados, no início do livro, no Morro dos Ventos Uivantes, mansão inglesa antiga, daquelas que têm extensão enorme, cheia de campos ao redor e que exige uma caminhada longa até a casa vizinha, a Granja da Cruz dos Tordos. O livro começa com uma estratégia narrativa que, à época, era bastante inovadora, uma narrativa não linear, que começa do final e retorna ao passado. Além disso, a princípio, o livro é narrado por um personagem alheio às histórias dos clássicos personagens Heathcliff e Catherine, mas logo transiciona a narração para a voz de Nelly, uma criada da casa.
    Acompanhamos, então, Heathcliff, um personagem bruto, violento e grosseiro, claramente perturbado por um fantasma de Catherine. Nelly nos leva em uma viagem longa, de muitos anos antes, quando Heathcliff foi "adotado" pela família dona do Morro dos Ventos Uivantes, e foi criado junto a Catherine e Hindley Earnshaw. Embora vivesse com esta família e fosse querido pelo seu pai adotivo, Heathcliff era perseguido e constantemente provocado por Hindley, que o odiava amargamente. Essa relação evidencia dois pontos muito importantes sobre a obra: em primeiro lugar, o início de um ciclo de violência que permeia toda a narrativa e marca para sempre a trajetória das personagens envolvidas; em segundo lugar, uma observação astuta de Brontë a respeito do racismo na Inglaterra do século XIX. Pois veja, Heathcliff, muito embora seja constantemente representado por atores brancos nas infortunas adaptações dessa obra, é um personagem descrito frequentemente como cigano e de pele escura. É evidente que a provocação de Hindley com Heathcliff não é apenas fruto da atenção do pai dividida, mas tem um claro viés racista, e isso não é nem questão de ler as entrelinhas da obra.

"Fique com meu cavalo, então, cigano"  -- disse o jovem Earnshaw. -- Tomara que ele quebre seu pescoço. Fique com ele e vá direto para o inferno, intruso miserável! Arranque tudo o que puder de meu pai, e então mostre a ele o que você é, cria de Satanás! E pegue o cavalo... Espero que arranque fora seus miolos com um coice!"

    Você até chega a se compadecer com o pobre do pequeno Heathcliff, mas esse sentimento dura pouco, muito pouco. Dura até que ele e Catherine se apaixonam e passam a viver uma relação incerta de paixão intensa e pouca concretização. Brontë é simplesmente brilhante ao construir uma narrativa tão repleta de angústias, de frustrações e de quases, que você acaba tomado pelas dores desse relacionamento, mesmo reconhecendo que não existe saída para ele. Desde os primórdios desse amor, é evidente que ele não tem por onde florescer, e que ele apenas se sustenta em uma verdadeira obsessão por ambas as partes, obsessão esta que é, inclusive, alimentada pelo ódio e pela fúria que só germina mais e mais na natureza desses personagens. Tanto Catherine quanto Heathcliff são pessoas crueis, vingativas, que depositam todo seu ódio naqueles ao seu redor, e fazem de tudo para conseguirem apenas suas vontades.
    E é por isso que qualquer descrição desse livro como um romance avassalador, que faz você suspirar ou algo assim é simplesmente uma leitura completamente inadequada. Me parece, inclusive, mais difícil ler essa obra com olhos românticos do que com os olhos de dor e tristeza da narradora. Até me deixa angustiada ver que uma obra tão complexa, que lida tão astutamente com as entranhas de um ódio acumulado e emaranhado nessas pessoas, foi lida com tanta leviandade. Sinto que esse tipo de leitura deixa de reconhecer o verdadeiro talento de Brontë com essa narrativa: a descrição de uma estrutura social construída pelo ódio. A violência de Hindley é a primeira semente que floresta por completo a alma de Heathcliff e Catherine, e até mesmo de Edgar, posteriormente. E essa floresta os domina tão completamente que até após suas mortes não deixa de crescer em seus túmulos.
    
"Ele não é humano -- retrucou ela --, e não é digno da minha caridade. Entreguei-lhe meu coração, e ele o torturou até a morte, então atirou-o de volta para mim. As pessoas sentem com o coração, Ellen, e como ele destruiu o meu, não tenho como sentir mais nada por ele, nem que eu quisesse..."

    Não vou adentrar mais afundo no enredo, para evitar spoilers, mas gostaria muito que o resultado dessa resenha fosse um incentivo à leitura desse clássico. Não porque ele te fará suspirar de paixão e desejar um "amor" como este. Nem sequer porque fala de amor. Mas, sim, porque ele constrói uma brilhante e sensível reflexão sobre violência, abandono, obsessão e ódio, mas também sobre o amor e o cuidado, que, por mais fracos e insuficientes que possam parecer, depositam alguma esperança na quebra desse ciclo.

"Demorei-me entre elas, sob aquele céu benévolo; observei as mariposas esvoaçantes entre as urzes e campânulas, escutei a brisa suave soprar pela relva, e me perguntei como alguém poderia imaginar um sono agitado para quem dorme na paz daquela terra."

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