Emma, de Jane Austen

 


"I suppose there may be a hundred different ways of being in love."

    Amantes de Jane Austen, espero que não me julguem pelo que vou dizer. Eu odiei esse livro.
    Li Jane Austen pela primeira vez há alguns anos, ainda na pandemia. Comecei por Orgulho e Preconceito, amei, decidi ler mais, li Persuasão, Razão e Sensibilidade e, agora Emma. Desde Persuasão, comecei a sentir que não entendia muito bem o porquê de as pessoas amarem tanto. O que não significa que não entendo a importância dos seus livros para a literatura, em especial para entender o espaço minúsculo e ínfimo que foi dado às mulheres para fazê-la. É evidente que seus livros têm o diferencial na maneira de construir suas personagens femininas, que são cheias de personalidade, autênticas, que não aceitam se casar por interesses, etc., e que a forma de descrever a sociedade da época é muito crítica e ironiza os pensamentos burgueses, marcados por interesses, relações falsas e exageradas, mentiras e escândalos.
    Certo, isso é tudo muito claro para mim, e imagino que o seja para todos que já leram ou pretendem ler seus livros. Mesmo assim, eu percebo que as pessoas são realmente apaixonadas pela literatura de Jane Austen, que seus livros extremamente amados e aclamados por leitores contemporâneos. Mas eu nunca realmente entendi o porquê, para além de sua importância como clássicos. Para mim, (com exceção de Orgulho e Preconceito), eles sempre foram... chatos. Desinteressantes, com enredos formulaicos e histórias maçantes. Emma não é diferente, inclusive, ouso dizer que, de todos os que eu li de Jane Austen, é o pior.
    A história de Emma gira em torno da personagem que dá nome ao livro, Emma Woodhouse, uma garota "excêntrica" (mas não o suficiente para ser interessante), confiante e cheia de opiniões (como, se não todas, a maioria das protagonistas de Austen). Após o casamento de sua melhor amiga, Miss Taylor (que se torna Mrs. Weston), Emma torna-se amiga de Harriet Smith e ambas tentam arranjar um marido para Harriet. Emma, por ser uma garota diferenciada e que tem a responsabilidade de cuidar de seu pai, Mr. Woodhouse, determina para si que nunca se casará (consegue prever como o livro termina?).
    O que acontece ao longo do enredo é um compilado de conversas desinteressantes, em que um personagem descreve o que acha sobre um terceiro, e o seu interlocutor concorda ou discorda e ambos discorrem sobre. Em sequência, acontece algo minimamente interessante (uma chegada de um novo personagem, um casamento, uma morte, etc.) que gera novos assuntos para a conversa dos personagens. De maneira nenhuma essas conversas são interessantes ao leitor (ao menos a mim, enquanto leitora, não eram). São conversas MUITO mais longas do que precisavam ser, repetitivas, maçantes, que não movem o enredo adiante e apenas demonstram como são os gênios dos personagens e a forma como eles mudam ao longo do enredo.
    
"Human nature is so well disposed towards those who are in interesting situations, that a young person, who wither marries or dies, is sure of being kindly spoken of."

      Emma é um livro sobre personagens e suas vivências. É quase como se você fosse transportado para o século 19 e estivesse ali, vendo e ouvindo todos os comentários que os personagens fazem sobre os outros personagens. Mas você, como leitor, não é um deles, você é o criado que fica no canto da sala escutando suas conversas sem realmente participar e se envolver na trama dos eventos. É um livro distante, impessoal, que me deixou com a sensação de que eu estava ouvindo a conversa de um estranho muito chato e escandaloso que sentou na mesa ao lado numa padaria cara.
    Austen tem um talento em descrever irônica e criticamente personagens burgueses inconvenientes, desagradáveis, interesseiros e falsos. Mas, em algum ponto nesse livro, esses personagens acabaram tomando conta de toda a trama e se tornaram, essencialmente, o livro. Ela faz todo um trabalho de construir personagens como Miss Bates, uma mulher chata, falante, mal educada, e faz questão de que nós, leitores, entendamos o quão insuportável ela é. Mas o que isso mais faz é tornar a leitura tão insuportável quanto a personagem. Eu senti falta de uma pausa, um respiro do desagrado irritante das personagens chatas para realmente dar espaço para o prazer da leitura.
    Também tenho um incômodo com a forma como o enredo constrói expectativas e mais expectativas a respeito de alguns aspectos da trama, mas as tantas reviravoltas ao longo da narrativa acabam por deixar as resoluções um tanto frustrantes. Você espera que um personagem seja o interesse romântico, e, de repente, ele se casa com outra. E você percebe que as últimas 100 páginas que construíram o sentimento de um personagem pelo outro foram, de certa forma, em vão.
    No mais, acredito que esse livro tenha seus bons momentos, em que fiquei intrigada e interessada pelos conflitos e suas resoluções, mas a minha sensação era de que eu precisava tolerar 50 páginas de conversas desinteressantes e repetitivas para finalmente acontecer algo interessante, e logo em seguida eu sabia que o interesse seria afogado pelas conversas desinteressantes que viriam depois.

"'Oh, to be sure', cried Emma, 'it is always incomprehensible to a man, that a woman should ever refuse an offer of marriage. A man always imagines a woman to be ready for anybody who asks her."

   Me frustra um tanto pensar que minha última leitura do ano tenha sido tão desagradável para mim. Mas também acredito que uma leitura não precisa ser prazerosa para ser lida. Terminar a leitura de Emma foi, de certa forma, um desafio para mim, aguentar tantas páginas de uma história com a qual eu não me envolvi nem um pouco não é tão fácil. Mas eu defendo fortemente a ideia de que nós devemos fazer coisas que nos desagradam de vez em quando, para realmente entendermos quem somos. Com essa leitura, percebi por fim, depois de ler 4 livros dela, que não sou uma pessoa de Jane Austen, apesar de ter muito apreço pela autora e seus feitos. Eu realmente tentei gostar mais dela, mas não foi.
    Espero que vocês, leradores de liros, também leiam livros que vocês não gostam, pelo desafio de descobrir quem vocês realmente são.

Feliz 2025!

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