Ainda estou aqui, de Marcelo Rubens Paiva
"(...) quando nos levam ao berço e apagam a luz, temos medo de tudo isso sumir e nunca mais voltar: por isso choramos até cansar."
Nunca tinha lido Marcelo Rubens Paiva. Eu sei que Feliz ano velho foi um livro decisivo na vida de tanta gente ao meu redor e sei também que o Marcelo é da Unicamp, assim como eu, o que só faz com que essa falta de leitura de minha parte seja ainda mais injustificável. Também sei (agora) que Marcelo viveu em 3 das cidades que tanto são presentes na minha vida: Campinas, pois cresci aqui e aqui vivo, São Paulo, pois é a melhor forma de fugir de Campinas, e Rio de Janeiro, cidade que meu coração escolheu amar tão, tão cedo.
Na verdade, eu nem tinha uma verdadeira noção de quem era o Marcelo para a além de autor-de-um-livro-que-não-li. Foi em 2024, quando começou-se o burburinho sobre o filme Ainda Estou Aqui, dirigido por Walter Salles, que atinei para este autor que eu estava lamentavelmente deixando passar despercebido por mim. Mas, ainda assim, foi só agora, em março de 2025, que de fato o conheci profundamente, muito mais profundamente do que eu imaginava para um primeiro contato com sua obra.
Em meio a tanto que dizem sobre este livro, sobre a Ditadura Militar brasileira, sobre Eunice e Rubens Paiva, sobre tortura e violência de Estado, como escrever algo novo sobre ele? Na verdade, será que eu realmente preciso dizer algo que ainda não foi dito?
"Superar? Impossível. Esquecer? Nem pensar. Tocar. Seguir. Esperar reacenderem outra fogueira no alto, outro facho de luz, que orientasse para a volta para a costa, para a terra firme, o chão."
Este é um livro sobre memória. Várias facetas da memória. A memória, aquela que nos acompanha desde que nascemos, individual e íntima, que registra tudo e nos mostra aquilo que queremos ou precisamos ver. Aquela memória que nos leva a um lugar diferente quando sentimos um cheiro especial ou um sabor familiar. Aquela memória que nos faz lembrar de alguém quando toca uma música ou que faz questão de não mostrar a fórmula certa na hora H da prova de física. Ou aquela memória que recontamos e revivemos todos os anos no almoço em família, que nem todos presenciaram, mas todos conhecem de cabo a rabo. A memória que nos individualiza, mas também nos coletiviza, nos faz parte de um todo. Essa memória pode ser muito particular a uma experiência de alguém, mas tantas outras pessoas a viveram tão igual que se torna a memória de todo um país, todo um continente.
A memória de Rubens e Eunice Paiva é individual. O jeito como Marcelo se lembra de sua mãe só poderia vir de alguém que viveu tão próximo dela. Seu jeito nada caloroso com os filhos, mas sempre disposta a ajudá-los. Uma mulher mergulhada em livros, obcecada pelo corpo magro, apaixonada pelo mar e pela cidade do Rio de Janeiro. Rubens, para Marcelo, era um homem divertido, engraçado, que brincava com seus filhos e lhes dava apelidos carinhosos. Um homem gordo, loiro, extremamente politizado, chefe de uma família nos moldes dos anos 60...
Mas nós não conhecemos este Rubens e esta Eunice. A memória que sempre estará dessas pessoas para quem não os conheceu é de que este é o casal da família Paiva, família despedaçada pelos horrores da Ditadura, mais uma das famílias que teve esse fim. Rubens, ex-deputado que foi torturado até a morte e teve seu cadáver escondido pelos próprios militares. Eunice, mãe de 5 que não apenas sofreu tortura também, como teve de se reinventar completamente em meio essa tragédia para tentar tocar uma vida que nunca mais seria a mesma.
E qual das memórias é a mais verdadeira? Qual delas é um retrato mais fiel a essas pessoas? A esse período, a essa história? Nenhuma delas, ambas. Existe aquela que é familiar, íntima, que Marcelo, através de uma escrita tão simples e tão poética, nos dá o privilégio de conhecer ao menos um pouco. Essa memória é imprescindível para entender algo que o tempo decorrido faz parecer que não existiu: as vítimas da ditadura eram pessoas, com pais, filhos, irmãos, amigos. Pessoas que foram arrastadas até o olho do furacão e tiveram que fazer limonada com limões podres e cobertos de farda.
"Não faríamos o papelão de sairmos tristes nas fotos. Nosso inimigo não iria nos derrubar. Família Rubens Paiva não chora na frente das câmeras, não faz cara de coitada, não se faz de vítima e não é revanchista. Trocou o comando, continua em pé e na luta. A família Rubens Paiva não é a vítima da ditadura, o país que é. O crime foi contra a humanidade, não contra Rubens Paiva."
Não é casual a união entre o individual e o público. Empresto um lema feminista muito importante aqui, o pessoal é político. E, ainda mais, o político é pessoal. As pessoas são afetadas pela política na mesma medida em que a afetam. Por isso é tão importante entender como a ditadura destruiu pessoas tão reais, tão profundamente humanas, cheias de vícios e defeitos, construídas por relações embaralhadas e complexas. E que apenas uma pessoa torturada, morta, desaparecida já deveria ser motivo de eterna indignação e repulsa, que dirá, então, as 434¹ que tiveram suas vidas, famílias, amores roubados de si.
A Ditadura Militar não foi um problema do passado. Ela deixou sequelas em todas as gerações que tiveram a infelicidade de encarar sua realidade, desde os mais afastados dela até os mais afetados por ela. Ela nunca foi embora, mesmo que não seja mais o regime vigente. Ela paira sobre nós como uma nuvem cinza distante no céu. Mas que você vê, você sente sua presença. De vez em quando, causa um trovão que te assusta e você pensa que, por fim, a tempestade retorna. E isso não é casual. A anistia que foi concedida aos militares responsáveis por casos como o de Rubens Paiva e tantos outros é a principal justificativa pela eternamente adiada dispersão dessa nuvem escura. Enquanto continuarmos assim, a nuvem estará ali, sempre à espreita, esperando as mínimas condições favoráveis para armar seu tenebroso temporal.
Mas, enquanto houver pessoas como Marcelo, Eunice, Rubens, e tantos outros que foram e continuam sendo corajosos o suficiente para meramente existir diante de tamanha tragédia, conseguiremos transformar tempestade em céu azul.
"Talvez, se meu pai estivesse vivo, estaria também morrendo naquele ano de 2006. Fumante e sedentário. Agora, sim, ela seria viúva."
Só para finalizar, Drummond:
Congresso Internacional do Medo
Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.
¹BRASIL. Comissão Nacional da Verdade. Relatório – Volume – I. Brasília: CNV, 2014.
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