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No seu pescoço, de Chimamanda Ngozi Adichie

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  "Não vou à igreja; parei de ir depois da primeira visita de Ebere, porque não tinha mais incertezas. É nossa desconfiança com a vida após a morte que nos leva à religião. Por isso, aos domingos, eu me sento na varanda, observo os abutres pisando no meu telhado e imagino que eles estão me espiando, intrigados."     A literatura de Chimamanda Adichie nunca passa por mim sem deixar seus rastros. Da primeira vez que li um livro dela, Americanah , fiquei tão impactada por seu jeito quase artesanal de fazer literatura que até hoje encontro seus vestígios em outras experiências literárias. Quando menos espero, em livros de tantos outros temas, enredos e formas de narração, encontro ali aquela memória literária de quando, aos 20 anos, tive o prazer de conhecer sua escrita.     No seu pescoço  é uma coletânea de 12 contos que abordam assuntos diversos, sempre por uma perspectiva de personagens nigerianos tomados por algum evento que os faz encarar suas próprias hi...

Persépolis, de Marjane Satrapi

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  "Claro que, mesmo com todas essas ameaças, as festas continuavam. Alguns diziam: 'Para poder suportar psicologicamente...', e outros completavam: 'Sem festa, pode encomendar nossos caixões'."     Persépolis é o nome que se deu à Cidade Persa ainda na antiguidade. Hoje, as ruínas desse lugar são consideradas patrimônio mundial pela UNESCO e simbolizam um poderoso registro histórico da antiga Pérsia, atual Irã. Mas a história de Marjane Satrapi acontece em anos muito mais recentes com a guerra entre Irã e Iraque, iniciada nos anos 1980, nesse mesmo cenário de ruínas e conflitos.     Através de uma belíssima história em quadrinhos, Marjane relata como sua vida mudou quando um governo autoritário teocrático tomou conta de seu país, Irã, e passou a ditar exatamente como as pessoas deveriam viver suas vidas. As mulheres, que até então se vestiam como queriam, se viram obrigadas a usarem véus e até chador  , uma roupa que cobre completamente seu corpo e deixa vi...

As Meninas, de Lygia Fagundes Telles

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  "Para que eu seja assim inteira (essencial e essência) é preciso que não esteja em outro lugar senão em mim."     As Meninas  é um sufoco. Quando li pela primeira vez era pandemia, li com minhas amigas em um clube do livro e precisei da primeira reunião para entender que as narradoras eram três pessoas diferentes. Agora, nessa releitura, vejo o quanto esse livro me marcou e, ao mesmo tempo, o quanto perdi dele na primeira vez. Percebo, agora, que esse livro é um livro de estante, um para ter guardado por toda sua vida e para ser revisitado de tempos em tempos. É um livro para ir saboreando com os anos, degustando, decantando. Parece que, à medida em que eu amadureço, o livro amadurece junto.     Lygia Fagundes Telles é uma joia rara que temos o prazer de ler em sua língua original. Em um país que tem Machado de Assis, Jorge Amado e Clarice Lispector, parece inacreditável que tenhamos ganhado em tantas loterias literárias a ponto de termos também a Lygia. ...

Yellowface, de R. F. Kuang

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  "It's hard, after all, to be friends with someone who outshines you at every turn." [SPOILERS MÍNIMOS ABAIXO]     Até que ponto uma criação é realmente original?     Essa é a pergunta que paira ao longo de toda a narrativa de Yellowface . Mais uma vez Kuang conseguiu me conquistar desde as primeiras linhas, mas, dessa vez, com uma narrativa completamente diferente de suas outras. Nessa história, as linhas éticas entre roubo e inspiração se borram fortemente e nos fazem pensar se realmente é possível criar algo original.     June Hayward é a anti-heroína e narradora desse livro. Ela nos conta desde o princípio que nunca pretendia se tornar uma ladra, mas cá estamos. Uma autora fracassada de formação acadêmica séria e promissora narra todos os acontecimentos que levaram à morte de sua grande amiga e escritora super-mega-hiper-bem-sucedida, Athena Liu. Uma morte surpreendente que acontece bem na sua (e na nossa) frente. Uma morte tão assustadora que lev...

Anarquistas, graças a Deus, de Zélia Gattai

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  "Nossa vida simples era rica, alegre e sadia. A imaginação voando solta, transformando tudo em festa, nenhuma barreira a impedir meus sonhos, o riso aberto e franco. Os divertimentos, como já disse, eram poucos, porém suficientes para encher o nosso mundo."     Não é difícil se apaixonar por Zélia Gattai. Desde que visitei sua casa em Salvador e conheci uma parte tão íntima de sua vida, me fascinei por quem ela era e por sua relação tão linda com Jorge Amado. Mas acontece que eu nunca havia lido nenhum de seus livros. E, agora que li Anarquistas, graças a Deus , posso dizer que toda minha paixão por ela era tão pouca perto do que se tornou.     O livro conta a história de sua família italiana anarquista nos anos 1920 em São Paulo. Filha de Ernesto e Angelina, pais rígidos e amorosos, de convicções políticas fortes, Zélia é a caçula de cinco irmãos, Remo, Wanda, Vera e Tito. Sua família morava na Alameda Santos nº 8 e, naquela casa, Zélia viveu toda sua infânci...

Gabriela, cravo e canela, de Jorge Amado

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  "Tudo que é bom, tudo que é ruim, também termina por acabar."     Aos desavisados, Gabriela, cravo e canela  não é uma história de amor. Sinto dizer, sinto frustrar os românticos de plantão, mas esse livro é muito mais do que a história de Nacib e Gabriela. E, mesmo assim, é impossível ler e não se deixar levar pelo caso de amor que acomete esses personagens tão apaixonantes.     Esse livro, assim como qualquer obra de Jorge Amado, é um retrato preciso de um lugar específico em uma época específica - Ilhéus nos anos 1920 - ao mesmo tempo em que é uma obra atemporal e universal. Dominada por uma dinâmica política envelhecida de coronelismo e plantio de cacau, a cidade de Ilhéus é o cenário de inúmeras histórias de amor, inclusive a de Nacib e Gabriela, em meio a disputas políticas acirradas, à medida que também enfrenta os efeitos da modernização e das mudanças de pensamento do novo século. Nacib, nosso protagonista, é o dono do bar Vesúvio, onde se reúnem...

Memórias de Martha, de Julia Lopes de Almeida

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  "Há flores nos pântanos, e refletem-se muitas vezes na lama os raios das estrelas." [Essa resenha contém SPOILERS]     Ano passado, em plena movimentação de pré-vestibular, os preparativos a todo vapor, a Fuvest lançou a sua lista de leituras obrigatórias para o vestibular de 2026¹ e, para a surpresa de todos, revelou um feito inédito: uma lista composta apenas de mulheres. Esse feito foi completamente inovador e nos mostrou uma comprovação daquilo que nós, feministas, sabemos há muito tempo: as mulheres sempre foram plenamente capazes de fazer parte da produção intelectual, artística e literária, e sempre o fizeram, mesmo que às escondidas. O que aconteceu, ao longo do cruel curso da história, foi o apagamento de suas inúmeras contribuições. O vestibular da Fuvest, em um movimento de resgate histórico, dá um espaço de notoriedade àquelas apagadas pela história. Em listas que, por anos, foram compostas de apenas homens, homens e mais homens, vemos uma luz no que diz res...