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Yellowface, de R. F. Kuang

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  "It's hard, after all, to be friends with someone who outshines you at every turn." [SPOILERS MÍNIMOS ABAIXO]     Até que ponto uma criação é realmente original?     Essa é a pergunta que paira ao longo de toda a narrativa de Yellowface . Mais uma vez Kuang conseguiu me conquistar desde as primeiras linhas, mas, dessa vez, com uma narrativa completamente diferente de suas outras. Nessa história, as linhas éticas entre roubo e inspiração se borram fortemente e nos fazem pensar se realmente é possível criar algo original.     June Hayward é a anti-heroína e narradora desse livro. Ela nos conta desde o princípio que nunca pretendia se tornar uma ladra, mas cá estamos. Uma autora fracassada de formação acadêmica séria e promissora narra todos os acontecimentos que levaram à morte de sua grande amiga e escritora super-mega-hiper-bem-sucedida, Athena Liu. Uma morte surpreendente que acontece bem na sua (e na nossa) frente. Uma morte tão assustadora que lev...

Anarquistas, graças a Deus, de Zélia Gattai

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  "Nossa vida simples era rica, alegre e sadia. A imaginação voando solta, transformando tudo em festa, nenhuma barreira a impedir meus sonhos, o riso aberto e franco. Os divertimentos, como já disse, eram poucos, porém suficientes para encher o nosso mundo."     Não é difícil se apaixonar por Zélia Gattai. Desde que visitei sua casa em Salvador e conheci uma parte tão íntima de sua vida, me fascinei por quem ela era e por sua relação tão linda com Jorge Amado. Mas acontece que eu nunca havia lido nenhum de seus livros. E, agora que li Anarquistas, graças a Deus , posso dizer que toda minha paixão por ela era tão pouca perto do que se tornou.     O livro conta a história de sua família italiana anarquista nos anos 1920 em São Paulo. Filha de Ernesto e Angelina, pais rígidos e amorosos, de convicções políticas fortes, Zélia é a caçula de cinco irmãos, Remo, Wanda, Vera e Tito. Sua família morava na Alameda Santos nº 8 e, naquela casa, Zélia viveu toda sua infânci...

Gabriela, cravo e canela, de Jorge Amado

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  "Tudo que é bom, tudo que é ruim, também termina por acabar."     Aos desavisados, Gabriela, cravo e canela  não é uma história de amor. Sinto dizer, sinto frustrar os românticos de plantão, mas esse livro é muito mais do que a história de Nacib e Gabriela. E, mesmo assim, é impossível ler e não se deixar levar pelo caso de amor que acomete esses personagens tão apaixonantes.     Esse livro, assim como qualquer obra de Jorge Amado, é um retrato preciso de um lugar específico em uma época específica - Ilhéus nos anos 1920 - ao mesmo tempo em que é uma obra atemporal e universal. Dominada por uma dinâmica política envelhecida de coronelismo e plantio de cacau, a cidade de Ilhéus é o cenário de inúmeras histórias de amor, inclusive a de Nacib e Gabriela, em meio a disputas políticas acirradas, à medida que também enfrenta os efeitos da modernização e das mudanças de pensamento do novo século. Nacib, nosso protagonista, é o dono do bar Vesúvio, onde se reúnem...

Memórias de Martha, de Julia Lopes de Almeida

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  "Há flores nos pântanos, e refletem-se muitas vezes na lama os raios das estrelas." [Essa resenha contém SPOILERS]     Ano passado, em plena movimentação de pré-vestibular, os preparativos a todo vapor, a Fuvest lançou a sua lista de leituras obrigatórias para o vestibular de 2026¹ e, para a surpresa de todos, revelou um feito inédito: uma lista composta apenas de mulheres. Esse feito foi completamente inovador e nos mostrou uma comprovação daquilo que nós, feministas, sabemos há muito tempo: as mulheres sempre foram plenamente capazes de fazer parte da produção intelectual, artística e literária, e sempre o fizeram, mesmo que às escondidas. O que aconteceu, ao longo do cruel curso da história, foi o apagamento de suas inúmeras contribuições. O vestibular da Fuvest, em um movimento de resgate histórico, dá um espaço de notoriedade àquelas apagadas pela história. Em listas que, por anos, foram compostas de apenas homens, homens e mais homens, vemos uma luz no que diz res...

A Vegetariana, de Han Kang

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  "'Você tem cheiro.' 'Cheiro de quê?' 'Carne. Seu corpo cheira a carne.' Dei uma sonora gargalhada. 'Você não viu que acabei de sair do banho? De onde você pode sentir esse cheiro em mim?' Sua resposta foi cortante. 'De todos os seus poros.'"     O segundo livro ganhador de Prêmio Nobel de Literatura que eu li esse ano, primeiro Nobel da Coréia do Sul. Li consideravelmente depois de sua fama maior, que acredito que tenha sido em torno de 2020 (foi quando ouvi falar dele pela primeira vez através de minha amiga Aline). Também li depois de minha madrinha, que foi quem me presenteou o livro em 2021 (eu tardo, mas não falho). Também li depois de minha mãe, que leu no começo desse ano, assim que foi laureado, e depois do meu irmão, que leu com os amigos em um clube do livro. Ou seja, minha sensação é de que eu fui a última pessoa do mundo a ler esse livro. E que demora...     A história dele não é exatamente o seu ponto mais especial, nem t...

Casa Velha, de Machado de Assis

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  "Há grande diferença social entre um e outro, mas a natureza, assim como a sociedade a corrige, também às vezes corrige a sociedade."     Machado em sua fase romântica pode parecer ingênuo, com uma escrita simples e um enredo superficialmente tradicional. À primeira vista, Casa Velha  não passa de uma novela romântica sobre um amor impossível. E realmente é isso que o livro é, mas existe uma incoerência cósmica em ler Machado de Assis e conformar-se apenas com a pura superfície do texto.     Essa obra foi publicada em uma revista feminina daquelas bem românticas que traziam em uma seção um molde para um vestido, em outra uma receita de gelatina mosaico com creme de leite e em outra ainda um romance que se atualizava semanalmente com novos capítulos. Nos anos de 1885 a 1886, posteriormente ao lançamento de Memórias Póstumas de Brás Cubas (o que nos levaria a pensar que seria da fase realista do Machado), ele publicou esta pequena novela em uma dessas revis...

Ainda estou aqui, de Marcelo Rubens Paiva

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  "(...) quando nos levam ao berço e apagam a luz, temos medo de tudo isso sumir e nunca mais voltar: por isso choramos até cansar."     Nunca tinha lido Marcelo Rubens Paiva. Eu sei que Feliz ano velho  foi um livro decisivo na vida de tanta gente ao meu redor e sei também que o Marcelo é da Unicamp, assim como eu, o que só faz com que essa falta de leitura de minha parte seja ainda mais injustificável. Também sei (agora) que Marcelo viveu em 3 das cidades que tanto são presentes na minha vida: Campinas, pois cresci aqui e aqui vivo, São Paulo, pois é a melhor forma de fugir de Campinas, e Rio de Janeiro, cidade que meu coração escolheu amar tão, tão cedo.      Na verdade, eu nem tinha uma verdadeira noção de quem era o Marcelo para a além de autor-de-um-livro-que-não-li. Foi em 2024, quando começou-se o burburinho sobre o filme Ainda Estou Aqui, dirigido por Walter Salles, que atinei para este autor que eu estava lamentavelmente deixando passar despe...