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Leite derramado, de Chico Buarque

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  "Veja só, neste momento olho para você, que toda noite está comigo tão amorosa, e fico até sem graça de perguntar seu nome de novo."     Minha história com esse livro não começa em mim. Desde pequena, me lembro de ver esse livro na cabeceira de minha mãe, ou em sua estante. O título me pareceu desde sempre muito característico dela, já que sempre trabalhou com amamentação, e as temáticas do leite, da mamadeira, da forma correta de segurar o bebê no processo, do bico, da deglutição, etc. são assuntos recorrentes em casa. Então, na verdade, minha impressão primeira desse livro era de pensar que Chico Buarque de repente virara um especialista em amamentação.     Também sempre fui apaixonada pelo Rio de Janeiro. Aos 10 anos visitei-o pela primeira vez, aos 15 voltei como presente de aniversário, então aos 23 voltei mais uma vez com uma amiga para uma viagem que não foi lá a melhor dos mundos (Gabi, ainda te devo uma volta ao Rio que faça jus à cidade). Mas, ainda ...

A cor púrpura, de Alice Walker

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  " ⁠Todo mundo quer ser amado. A gente canta e dança, faz careta e dá buquê de rosa, tentando ser amado. Você já reparou que as árvore fazem tudo que a gente faz pra chamar atenção, menos andar?"     A cor púrpura  é um livro epistolar, o que significa que ele é narrado por meio de cartas. A princípio, Celie, a protagonista, escreve dirigindo-se a Deus, e, com uma escrita tão simples e repleta de desvios à norma-padrão (coisa com a qual ela nunca pôde ter contato), conta suas angústias vivendo com seu pai, que abusa sexualmente dela e maltrata sua mãe e sua família; até que sua mãe morre (isso acontece literalmente na página 11, não é spoiler). Celie, então, é forçada a casar-se com o Sinhô ____ (essa é a forma como ela escreve seu nome ao longo de quase o livro todo) e criar os filhos dele inteiramente sozinha, sem afeto e amor por ele ou pelos filhos. Sinhô ____, incomodado desde o princípio com a relação de Celie com sua irmã Nettie, a proíbe de vê-la e contatá-l...

Maus, de Art Spiegelman

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  "Tanta coisa eu nunca vou conseguir entender nem visualizar. É que a realidade é complexa demais para ser contada em quadrinhos..."      Maus é o livro que inaugura minhas leituras de 2025. Começo o ano com um tipo de livro que há anos não lia: quadrinhos. Mas não estamos falando de Homem-Aranha (o que não seria nada mal, inclusive, o último quadrinho que eu havia lido antes desse foi um dele). E este livro é interessante, ainda mais à primeira vista. Pode até ser que a capa dele te assuste, te faça pausar e pensar: "será que é isso mesmo que eu estou vendo?". É, é sim.     Esse livro conta a história de Vladek Spiegelman, pai do autor do livro, Art. Vladek era um homem judeu polonês que foi vitimado pelo holocausto, mas conseguiu sobreviver (o que não é uma vitória , mas uma sorte do destino, e já vamos ver o porquê), e seu filho pede que ele conte sua história para ser ilustrada e publicada. Vladek é um homem de personalidade antiga, bastante avarento ...

Emma, de Jane Austen

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  "I suppose there may be a hundred different ways of being in love."      Amantes de Jane Austen, espero que não me julguem pelo que vou dizer. Eu odiei esse livro.     Li Jane Austen pela primeira vez há alguns anos, ainda na pandemia. Comecei por Orgulho e Preconceito , amei, decidi ler mais, li Persuasão, Razão e Sensibilidade  e, agora Emma . Desde Persuasão , comecei a sentir que não entendia muito bem o porquê de as pessoas amarem tanto. O que não significa que não entendo a importância dos seus livros para a literatura, em especial para entender o espaço minúsculo e ínfimo que foi dado às mulheres para fazê-la. É evidente que seus livros têm o diferencial na maneira de construir suas personagens femininas, que são cheias de personalidade, autênticas, que não aceitam se casar por interesses, etc., e que a forma de descrever a sociedade da época é muito crítica e ironiza os pensamentos burgueses, marcados por interesses, relações falsas e exagera...

Intermezzo, de Sally Rooney

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  "No entanto, aceitando a premissa, permitindo que a vida não signifique nada por um instante, não é simplesmente uma sensação boa  estar nos braços dessa pessoa?" Um interlúdio é uma parte de uma composição musical que tem o objetivo de separar um trecho musical de outro. É como uma transição gradual entre aquilo que já passou e aquilo que está por vir. Ninguém vai assistir a uma orquestra procurando pelo interlúdio. Mas ele está lá, sempre. Ele tece a narrativa. No livro mais recente de Sally Rooney, Peter e Ivan Koubek, dois irmãos completamente diferentes vivem seus próprios interlúdios após a morte do pai. Peter é um advogado de 32 anos, arrogante e metido à besta, que se sente superior a todos à sua volta, mas ao mesmo tempo se odeia mais do que odeia qualquer outra pessoa. Enquanto isso, Ivan, de 22 anos, acaba de sair da faculdade e é um competidor de xadrez de alta classificação. Ele, ao contrário de Peter, é socialmente estranho , se sente desconfortável em muitas ...

Nós matamos o cão tinhoso, de Luís Bernardo Honwana

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  "Mas não me olhes como se eu tivesse culpa, Cão Tinhoso! Desculpa, mas eu tenho medo dos teus olhos..." A coletânea de contos de Honwana é uma obra bastante representativa da história de Moçambique. Após 400 anos de colonização, não é possível fugir dos efeitos de toda a violência, segregação e desigualdade que isso constroi na sociedade. E é importante entender que Honwana foi militante do movimento FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique), e que este livro foi publicado durante sua prisão política. Então, é evidente que a obra não tenta fugir desses elementos, muito pelo contrário: eles são elementos absolutamente constitutivos da trama. Mas, ele não se encerra nisso. É muito mais do que isso. Sempre que lemos literaturas africanas, ou de lugares historicamente marcados por opressão, invasão e colonialismo, esperamos que a obra seja um retrato disso, seja uma obra que nos ensine  sobre a história dramática deste país. Não se oferece o espaço para literaturas africanas...

Ao farol, de Virginia Woolf

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  "Pode ser que você acorde e descubra que o sol está brilhando e os pássaros estão cantando." Ler Virginia Woolf é sempre um desafio. É uma experiência de desprendimento com aquilo que sempre nos preocupamos em primeiro lugar quando lemos qualquer livro, o enredo. E já adianto aqui que o enredo é secundário, no mínimo, nessa história (e arrisco dizer que em qualquer livro da Virginia). O que realmente é brilhante na obra dela são as reflexões, os pensamentos dos personagens,  a  forma como os sentimentos deles transbordam suas mentes e encharcam o papel. O enredo pouco importa nesse processo, ele é pano de fundo dessa pintura. Inclusive, gosto de pensar nesse livro como uma pintura impressionista. O tipo de pintura que, de longe, é coesa e interpretável, você é capaz de enxergar um farol, uma família com 8 filhos, amizades entre sujeitos  ricos e suas conversas que conduzem a história. Assim como você é capaz de enxergar, de longe, um farol, uma praia, barcos e uma ...