A visão das plantas, de Djaimilia Pereira de Almeida
"(...) a missão do jardim desgovernado era penetrar nas frinchas das portas, apodrecer a água do poço com fungos venenosos, apoderar-se da mobília, entrar nas gavetas, alastrar os ramos até aos olhos dos quadros dos velhos e levar a memória do que fora a vida humana que um dia ali tinha habitado."
A visão das plantas é uma história de redenção. Não no sentido de uma história construída para que você perdoe os pecados de um personagem, mas, sim, uma história que te leva em uma jornada em direção à redenção, à paz em relação ao que já foi. Não é um livro para ser lido agarrado ao desejo de vingança ou catarse, nem com a expectativa de qualquer aventura grandiosa. Essa é apenas a história de um velho que está morrendo.
Este velho, Capitão Celestino, era um capitão de navio negreiro que retorna à sua antiga casa de infância para preparar-se para sua morte. Tudo o que sabemos ao início do livro é que este é um homem violento, cruel, que fez ações tão grotescas e terríveis que suas histórias se tornam parte do folclore da cidade. Aquele homem é responsável por atrocidades incalculáveis, e ele está de volta, pronto para esperar a chegada da morte.
A notícia de seu retorno corre pelas línguas dos moradores. As crianças passam a temê-lo, mas com tal curiosidade que buscam sua casa e procuram ouvir suas histórias. Os vizinhos tentam ver o que faz ali aquele homem tão cruel. E o que faz Celestino é simplesmente tomar conta das plantas que ocuparam toda sua casa. Ele as rega, poda e cuida com devoto carinho, tal como nunca ofereceu a nada nem a ninguém em toda sua vida.
"Ao contrário do que se dizia na vila e lhe assegurava a língua-de-trapos do sacristão, a casa não fora ocupada por um facínora, mas por um homem atrapalhado com os preparativos do seu enterro."
Aos poucos, Celestino, assombrado por seus assassinatos terríveis, começa a se ver metamorfoseado nas próprias plantas de que cuida. Essa transformação parece oferecer, a princípio, uma certa forma de redenção ao capitão, como se devolvesse vidas ao mundo para compensar aquelas que tirou. As plantas não são sentientes e não depositam no capitão qualquer carinho recíproco, mas ele passa a ver em sua vida um sentido que nunca vira antes.
A narrativa é estonteante, atinge no coração e não deixa espaço para desejos vingativos. Aqui, vemos um homem que entende por completo toda a gravidade do que fez ao longo de sua vida e sua lenta e gradual humanização à medida em que se torna parte da natureza de que toma conta. Na mesma medida, envelhece e vai se aproximando de uma morte que promete ser, ainda que marcada pelos fantasmas de seu passado, limpa de punições eternas.
"Se alguém, alguma coisa, no Céu, tivera piedade do monstro que fora e que era, revelava-se sob a forma de flores e frutos, mostrando-se como uma graça que só ao capitão cabia regar."
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