A Deusa em Chamas [A Guerra da Papoula #3], de R. F. Kuang

 

"Quando se ignora a humanidade de alguém, é fácil matá-lo"

    Depois de dois longos meses lendo este livro, finalmente finalizei a grandiosa trilogia d'A Guerra da Papoula. Não sei como essa saga não se tornou uma das obras mais comentadas da atualidade. Tenho dito, desde que li o primeiro livro da série, que é uma obra de tal complexidade que eu não consigo acreditar que tenha sido fruto da cabeça de uma só pessoa, um ser humano como qualquer um de nós. O realismo da obra é tal que me peguei ao final pensando se o xamanismo não é realmente possível. A intensidade é tanta que eu não conseguia ler muitos capítulos em um dia só, porque me deixavam angustiada quanto aos rumos da humanidade (a nossa humanidade, não era nem a do livro).
    Mesmo assim, no final, não consegui parar. As últimas 100 páginas do livro, li em uma tarde afobada cheia de desespero por encerrar essa história. E, finalmente, quando li as últimas palavras, só consegui sentir um nó na garganta, uma falta de ar, um peso no peito...

"Queria assistir, como uma criancinha que destrói ninhos de pássaros, o tamanho da ferida que as duas forças que se autoproclamavam as mais poderosas daquela terra poderiam abrir no tecido do mundo."

[SPOILERS DE TODA A SAGA A SEGUIR]

    Nessa última narrativa, acompanhamos Rin liderando o exército do sul do seu país em direção às batalhas finais que garantirão -- idealmente -- o fim da República dos Yin e o poder governamental a Rin. Acompanhamos lentamente toda a construção estratégica de cada uma das batalhas, todas as decisões que levam Rin a ganhar, perder, ganhar de novo e perder de novo, em uma história que parece interminável.
    Kuang parece ter construído esse livro com a proposta clara de desmitificar a guerra, retirar o glamour da estrategização de exércitos e nos fazer agonizar, junto à população de Nikan, a cada passo de uma guerra civil muito maior do que aparentava ser. É como ler A Esperança [Jogos Vorazes #3] e acompanhar toda a parte mais burocrática e angustiante da guerra, temperada com cenas de ação bem ansiolíticas. É o tipo de livro que mostra que cada pequeno passo dado em uma guerra -- ficcional ou real -- é calculado em uma sala cheia de generais poderosos sedentos por poder e vingança, mas realizado em um campo de batalha repleto de pessoas que têm tudo a perder -- e ganhar.
    Rin não é diferente. Acompanhamos seus pensamentos à medida em que seu poder cresce, suas estratégias tomam forma, sua imagem popular se consolida cada vez mais e vamos descobrindo que guerras não acabam quando terminam. E vamos descobrindo que as vitórias de Rin apenas acumulam rancores, medos e paranóias na cabeça da protagonista, junto a um sentimento de heroísmo enebriante. Ao final, vemos que essa pobre speerliesa de uma cidade rural, essa heroína do sul, foi jogada de cabeça em uma história muito mais longa e complicada do que ela poderia imaginar.

"Daquela vez, no entanto, os corpos não se transformaram em esqueletos, mas permaneceram furiosamente vivos. Aqui estamos nós, diziam eles. Testemunhe nosso êxito. Escapamos do passado e somos donos do futuro."

    Rin é posta no papel de heroína que libertará seu povo de um governo autoritário, que se alia aos Hesperianos -- supremacistas raciais e religiosos, donos de tecnologias avançadas e confusas -- para manter o povo sob seu comando -- sempre com um discurso de supostamente saber o que é melhor para eles, já que eles próprios não o sabem. Nessa empreitada, Rin caminha com o povo do sul em direção ao monte que abriga os deuses e o poderoso xamã adormecido Riga, sob a promessa de que, se eles se aliassem, venceriam a batalha invencível contra a República.
    O longo caminho é maçante, duro e torturante, tanto para o exército de Rin quanto para mim, a leitora cansada que não queria acompanhar toda aquela angústia e queria chegar logo a uma resolução. Mas o sofrimento é recompensado com uma cena completamente avassaladora que conclui a caminhada e introduz a parte final do livro.
    O brilho da obra, então, se torna acompanhar lentamente a degradação da mente de Rin, que, a cada passo em direção à vitória, se torna mais sanguinária, insensível à vida e morte de terceiros, e, mais importantemente, paranoica. Ao final, o livro revela uma protagonista instável, insegura e violenta, que não consegue uma vitória gloriosa como visionava.

"A guerra não acabara, não tão facilmente -- apenas continuou aumentando em pequenas feridas que se acumularam umas sobre as outras até explodirem outra vez em novas feridas."

    Meu fascínio com o final dessa longa saga é com a qualidade de Kuang em construir uma narrativa tão profundamente intensa que até mesmo o final tão esperado não alcança nenhuma catarse. O final, na verdade, só nos mostra que não há vitórias em nenhuma guerra, e que até mesmo a conquista do que tanto se esperava não é capaz de desfazer as dores do caminho que nos levou até ali. O resultado verdadeiro das guerras é o que Kuang mostra nas últimas páginas de seu livro: pessoas famintas, doentes, incapacitadas, enlutadas e abandonadas pelos heróis que prometeram libertá-las da opressão. E agora, livres, o quê? Para onde vamos, sem plantações, sem comida e sem planos?
    Rin é a personificação do falso herói que promete uma vitória grandiosa e que, quando esse momento finalmente chega, ele apenas serve para mostrar a ela os horrores da violência que os levou até ali. Não é que Rin não acreditasse que estivesse levando as pessoas à libertação, e não é que nós, leitores, e a população nikara não acreditássemos que aquele caminho era o único capaz de construir o novo mundo. Mas a caminhada que leva até ali é dolorosa e não deixa de existir quando a República cai. Depois da destruição, a poeira baixa e tudo o que se vê são as ruínas do seu desastre.
    E uma governante como Rin, errática, impulsiva, rancorosa e raivosa é a personificação da violência "em prol do bem maior". Quando ela acaba, continua pairando no ar, continua pesando o coração das pessoas eternamente, matando-as um pouco mais a cada dia.

"-- Eles não são ovelhas. São pessoas comuns, Rin, e estão cansados de sofrer. Só querem que isso termine."

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