Crime no Copan, de Victor Bonini
"Pai e filho mortos na mesma noite. Tão terrível quanto inexplicável."
[SEM SPOILERS, PODE LER TRANQUILO]
Para os amantes de São Paulo, Crime no Copan é uma obra espetacular. A investigação criminal tem como cenário -- e protagonista -- o grandioso Copan, cartão-postal paulistano construído em 1966 por Oscar Niemeyer, característico por sua estrutura curva e sua população de mais de 5 mil habitantes, chegando a ter até mesmo um CEP próprio. O Copan, em toda sua grandiosidade, não poderia ser apenas o pano de fundo de um livro como esse. Ele é o personagem principal, a força pulsante do livro.
Para fazer jus ao edifício, o livro começa intenso, curioso. Já nas primeiras páginas conhecemos brevemente o síndico, Lorenzo, e seu filho, Theo, ambos mortos ao final do primeiro capítulo. O que sabemos sobre esses dois até então é que eles brigam logo antes de morrerem -- Theo, baleado na rua por um suposto assalto; Lorenzo, jogado/caído/empurrado da janela. Mais interessante ainda é o fato de que as duas mortes ocorrem durante uma grande festa que celebrava os 60 anos do Copan e o aniversário do Theo.
"Numa São Paulo que cheira a nostalgia e selva, o edifício Copan se ergue sinuoso como um predador."
A ambientação da obra é espetacular. É perceptível a relação que o autor, Victor Bonini, construiu não só com o Copan, mas também com a cidade como um todo. As ruas, as relações entre as pessoas, as dinâmicas familiares, tudo pinta com delicadeza e complexidade uma São Paulo conhecida, familiar. Em meio à leitura, é possível visualizar quase que perfeitamente o perfil paulistano de cada personagem, mas, ao mesmo tempo, é também perceptível a complexidade que cada um assume, para além da obviedade estereotípica. Cada um deles, à primeira vista, é um representante perfeito de alguém que você já viu, mas, à medida em que se aprofundam, eles demonstram nuances imprevisíveis e surpreendentes.
A escolha do Copan de certo não foi um feliz acidente. Acredito que Bonini tenha se apaixonado pelo edifício como qualquer apreciador da selva de pedras, e a partir dessa paixão desenvolveu uma história à altura -- precisamente, 115 metros. O livro acompanha um grupo enorme de personagens, cada um devendado para nós em um momento oportuno, o que vai complexificando a trama e deixando mais e mais dúvidas. A cada ponto esclarecido, outros três são postos em xeque.
"-- Pronto. -- Geni segura a polaroide contra a luz do sol. -- Agora ninguém diz que a gente não existiu."
Essa é uma leitura deleitosa, saborosa, intrigante. É um livro para devorar e degustar. A investigação é praticamente secundária em relação às histórias dos personagens. Aos amantes de São Paulo, esta obra é uma verdadeira carta de amor à cidade.
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