O Quinze, de Rachel de Queiroz

 


"Imaginava retirar uma porção de gado para a serra. Mas, sabia lá? Na serra, também, o recurso falta... Também o pasto seca... Também a água dos riachos afina, afina, até se transformar num fio gotejante e transparente. Além disso, a viagem sem pasto, sem bebida certa, havia de ser um horror, morreria tudo."

    Como sempre, ler Rachel de Queiroz é uma atividade angustiante. Seja pela sua escrita dolorosa e cruelmente precisa, ou seja pela sua história emblemática, traidora e hipócrita. Não vou passar muito tempo discorrendo sobre como essa autora se mostrou, ao longo de sua história, uma pessoa tão cruel e hipócrita (se você quiser saber mais sobre isso, leia minha resenha de Caminho de Pedras), mas acho que é impossível se aventurar em qualquer obra dessa autora sem se lembrar dos horrores da sua vida. De qualquer forma, vamos ao livro.
    O Quinze é uma narrativa modernista de segunda geração que gira em torno de uma longa seca que aconteceu no Ceará no ano de 1915. Logo no início, o enredo te joga em meio às rezas de uma das personagens principais, Dona Inácia (ou Mãe Nácia) rezando para São José, pedindo que venha uma chuva. Mas, é claro, nós já sabemos que essa chuva não virá, e todas as pessoas (pobres) da região vão ter que mover mares e montanhas para sobreviver a essa tragédia. É, de certa forma, uma premissa clássica do regionalismo brasileiro que nós conhecemos muito bem com Morte e vida severina, de João Cabral de Melo Neto, ou Vidas Secas, de Graciliano Ramos. Junto a todos esses, O Quinze parece compor uma trilogia clássica dos retirantes.

"Apesar da fadiga do longo dia de marcha, Chico Bento levantou-se e saiu; a garganta seca e ardente, parecendo ter fogo dentro, também lhe pedia água.
Os meninos, passado o furor do apetite, exigiam com força o que beber; gemiam, pigarreavam, engoliam mais farinha, ou lambiam algum taco de rapadura, entretendo com o doce a garganta sedenta."

    O livro acompanha dois núcleos principais: Conceição, Mãe Nácia e Vicente -- Conceição e Vicente são primos e são apaixonados um pelo outro --, e Chico Bento, sua mulher Cordulina e seus filhos -- que são funcionários de uma fazenda forçados a se retirarem por conta da seca. O primeiro núcleo é um pouco menos interessante, não me despertou particular gosto ou desgosto por qualquer dos personagens. O que acontece com eles é que Conceição, que é professora na cidade de Quixadá, leva sua avó, Mãe Nácia, para sua cidade para aguentar melhor a seca. E Vicente, enquanto isso, fica lidando com a falta de trabalho, mesmo que sua condição seja um pouco melhor que a dos demais trabalhadores da fazenda. O amor dos dois é evidente, mas o livro nem nos dá tempo para torcer por eles, porque até mesmo isso é afetado pela seca. No fim, é apenas um ciclo um pouco frustrante.
    O verdadeiro ouro do livro reside mesmo no núcelo de Chico Bento. Ele e sua mulher sofrem todos os males de suas condições: ao mesmo tempo, são trabalhadores braçais de fazenda, são pobres, têm muitos filhos e ainda são forçados a tornarem-se retirantes. Seus sofrimentos são alguns dos momentos mais marcantes do livro, ao ponto de que me vi até parando a leitura e tendo que recuperar o fôlego ao ler a fatídica cena da mandioca brava.
    Enfim, é impossível dizer que Queiroz não tenha um talento especial com a escrita, ainda mais durante sua juventude. Ela constrói, como um artesão esculpe no barro, uma obra dura, densa, angustiante, até mesmo desesperadora. E, no fim, encerra tudo com um leve sopro de esperança, que não é bem suficiente para resolver ou desfazer tudo o que vimos, mas alivia um tanto as dores, como um sopro de mãe em um machucado no joelho de seu filho.

"Ficou em paz. Não tinha mais que chorar de fome, estrada afora. Não tinha mais alguns anos de miséria à frente da vida, para cair depois no mesmo buraco, à sombra da mesma cruz."

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Três, de Valérie Perrin

A cabeça do santo, de Socorro Acioli

A paixão segundo G.H., de Clarice Lispector