"Caderno proibido", de Alba de Céspedes, e as dores do despertar feminino
"Compreenderá, tenho certeza, já que todas as mulheres escondem um caderno negro, um diário proibido. E todas devem destruí-lo."
As mulheres que lerem este livro serão capazes de reconhecê-lo como um livro de terror, e muito mais assustador do que qualquer obra do Stephen King. Embora não seja uma obra particularmente cativante, ou contenha um enredo envolvente e repleto de acontecimentos, o que este livro carrega é muito mais nefasto, sufocante e aterrorizante. Ele conta a história de uma mulher, Valéria, que, um dia, numa tabacaria, compra um caderno que é referido pelo vendedor como proibido. Para Valéria, o simples ato de carregar um caderno vazio que será usado para registrar alguns de seus pensamentos parece ser suficientemente criminoso para romper com a delicada ponte que sustenta sua vida de pé.
É a partir dessa reflexão que o livro começa seu lento e doloroso processo de denúncia da realidade das mulheres. Em uma Itália pós-guerra dos anos 1950 que mais parece o hoje e o amanhã daqui da esquina, os pensamentos da protagonista são registrados ao longo de vários meses neste caderno, o qual nós, leitores, temos o privilégio ingrato de ler. Ao longo desse período, Valéria conquista aquilo que é simultaneamente seu despertar e seu maior pesadelo: a percepção de sua condição.
Mãe de uma menina, Mirella, e um menino Riccardo, e casada com Michele, Valéria começa a perceber que toda sua vida foi construída em cima de um combinado secreto sobre o qual ninguém realmente fala, mas ao qual todos se submetem. Ou, melhor dizendo, ao qual as mulheres se submetem, e do qual os homens se aproveitam.
"Ao reler o que escrevi ontem, acabo me perguntando se não comecei a mudar de índole a partir do dia em que meu marido, de brincadeira, passou a me chamar de 'mamãe'."
O gradual despertar da protagonista não é um processo, obviamente, satisfatório. Acontece em meio a eventos mundanos demais para comporem um enredo interessante ou cativante. Mas seria injusto exigir desse livro acontecimentos extraordinários, quando seu verdadeiro intento é apodrecer o cotidiano. O que realmente fervilha nessa obra é o vislumbre de um universo perfeitamente comum, casual, familiar, no qual se expõem os vermes, tão canônicos e conformes que nós deixamos de vê-los pelo que realmente são.
A condição feminina que é descrita aqui não é nem um pouco incomum. Na verdade, sob olhos comparativos, ela nem é, necessariamente, a pior das condições. Afinal, uma mulher que trabalha e conquista seu salário para sustentar sua família parece ser um grande passo além daquilo que conhecemos como a prisão feminina. Mas aí é que está: em todos os momentos de conquista feminista, o mundo consegue encontrar maneiras de moldar-se para que estas conquistas encontrem novamente o caminho da submissão. E, para o trabalho feminino, isso significa ser justamente o que Valéria é: uma mulher que, embora trabalhe e receba seu salário, devota-se para a criação dos filhos, a manutenção do trabalho doméstico e, ainda por cima, a sustentação financeira de ao menos uma parte dos gastos. Isso significa que a sua condição não é mais liberta por conta de seu trabalho, e, sim, talvez até mais aprisionada ainda, pois submete-se ao dobro de prisões.
Mesmo assim, não espere de Valéria uma protagonista perfeitamente feminista quando começa a compreender sua condição. O clássico evento do despertar é justamente não perceber como suas próprias atitudes e pensamentos não somente refletem como perpetuam os grilhões que te prendem. A relação de Valéria com sua filha, na minha opinião, o ponto principal da narrativa, e é o mais infuriante e frustrante. Embora Valéria perceba sua condição, não aceita que sua filha tente fugir deste caminho. E, ao mesmo tempo, sua filha, mesmo sabendo que não quer para si a prisão da condição feminina, não é capaz de perceber como suas próprias atitudes com a mãe continuam empurrando-a para dentro deste calabouço. É a verdade mais angustiante do despertar feminino, aquela sobre a qual Beauvoir falou tão claramente: "O opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos."
E dói profundamente perceber que as mulheres são a ferramenta essencial para a perpetuação do patriarcado, pois uma das pernas que sustenta esta estrutura toda é justamente o conflito entre nós que ele faz surgir. A desconfiança, a raiva e o sentimento de traição, tudo isso é parte da construção de mulheridade que temos. As mulheres libertas incomodam às demais porque, ora, como ousam desprenderem-se de toda essa obrigação? Enquanto isso, as mulheres que estão presas incomodam às libertas porque, ora, como ousam manterem-se nesta condição? Esse ressentimento é o combustível que mantém o patriarcado funcionando.
"Precisei aprender tudo. Cuidei da casa e trabalhei como seu pai para que vocês pudessem frequentar o liceu, a universidade, ter roupas e sapatos. Assumir meu lugar não é tão fácil assim."
Enquanto isso, o livro também explora muito bem o pacto da masculinidade. O não reconhecimento do trabalho da mãe como trabalho, a atribuição natural de determinadas responsabilidades à mãe, a eterna compreensão de que a figura da mãe é, por natureza, cansada e hipertrabalhada, mas sempre satisfeita com a sua função. Estas são algumas das temáticas mais duras de se observar na história. Mas tudo culmina em um dado momento, ao final do livro [sem spoilers, calma], em que Riccardo e Michele (filho e pai, respectivamente) parecem concordar em um silencioso contrato que todos os problemas serão resolvidos porque alguém, que não eles, sempre estará lá para equilibrar todas as bandejas, mesmo que isso signifique um sacrifício pessoal por parte dessa mulher (não que eles sequer sejam capazes de perceber este sacrifício). Mesmo a suposta ideia de que a sustentação financeira de uma casa partiria do homem é uma falácia de revirar o estômago, pois é a mãe a responsável por toda a organização do dinheiro, é ela a responsável por metade dos ganhos e é ela, sempre, a assumir o trabalho não remunerado e nunca, jamais reconhecido de sustentar a casa, verdadeiramente.
Enfim, eu poderia passar dias e mais dias falando sobre todos os aspectos que me tocaram sobre esse livro. A angústia de se perceber neste meio é terrível, mas o despertar é necessário. Além disso, o que eu acredito que faz do livro melhor ainda é justamente a evidência de que o despertar é o primeiro horror da condição feminina, e por isso tantas de nós preferem continuar sustentando esta grande mentira, mesmo que seja só em nome de voltar a dormir à noite. Acordar é terrível.
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