O presidente e o sapo, de Carolina de Robertis
"Ele nunca encarou como favas contadas a liberdade de preparar um mate, muito menos depois dos anos que passou sem essa possibilidade."
Comecei a ler esse livro logo depois do primeiro turno das eleições de 2026. O susto da ascenção do fascismo me sinalizou que, de alguma forma, eu poderia encontrar respostas nas reflexões desse livro. O que encontrei foi exatamente do que eu precisava.
Em um Uruguai contemporâneo, uma equipe jornalística norueguesa chega à casa de José Mujica, mais conhecido como Pepe, para entrevistá-lo. O ex-presidente, que outrora recebera a alcunha de O presidente mais pobre do mundo, recebe a equipe em sua casa, onde morou até mesmo durante seu mandato de presidente.
O ex-presidente convida a equipe para sentar-se em seu quintal e prepara gentilmente um mate para tomarem enquanto conversam, como qualquer uruguaio faria. Sua normalidade, mesmo sendo um homem de tal importância, surpreende à entrevistadora e a mim, que, a cada página, me encantava mais com sua postura, seus pensamentos, seu jeito de ser.
Evidentemente, essa é uma ficção biográfica, o que significa que os elementos descritos no livro são ficcionais, mas baseados em uma longa e detalhada investigação da autora sobre Mujica. Mesmo assim, parece construir uma pintura honesta e profunda sobre ele, e sobre aquilo que ele nos ensinou em vida.
Já no início do livro, a entrevistadora começa a conversar com Pepe sobre o tempo que passou preso, perseguido pela dura ditadura uruguaia -- eterna cicatriz compartilhada entre latinoamericanos. O guerrilheiro passou 14 anos preso -- 10 deles em solitária --, alguns anos dentro de um buraco, sendo alimentado por uma corda que trazia sua comida e observando a movimentação dos bichos que caminhavam e viviam por ali, alheios aos horrores que presenciavam.
"Estupor era coisa de prisioneiro submisso. De cidadão dócil. Os fascistas adoram o estupor. Eles insistem no estupor. Cala a boca. Pare de pensar. Vire uma mente passiva. É o que eles querem que aconteça com todo mundo, não só com os presos, mas também com todas as outras pessoas, aquelas que vivem além dos muros da prisão e que fingem ainda serem livres."
O elemento ficcional da história acontece quando um sapo chega ao buraco onde Mujica está preso e começa a conversar com ele, pedindo que lhe conte histórias sobre sua vida. A missão dele é que o guerrilheiro retorne em suas memórias até o momento em que encontre A Coisa, algo que supostamente mostraria a ele o porquê de ele estar ali, e o porquê de ele continuar lutando pela vida.
Suas histórias constroem uma imagem profunda, poética, inspiradora do homem que as conta. Ele relembra seus momentos de coragem em luta, mas também seus momentos de amor, de fraqueza, de medo. Ele nos mostra seu amor por sua esposa, aqui chamada ficcionalmente de Sofía. Ele relembra de sua mãe, carinhosa e cuidadosa, e de seu pai, que morreu quando ele era ainda muito novo. Mas, mais importante, ele se lembra de quando era menino e trabalhou como florista, e sobre como isso o ensinou sobre o ciclo da vida, a potência do florescer.
"(...) ele agora era capaz de enxergar, em uma revelação ferina, enquanto ele se refestelava nas enormes mãos do Senhor Takata, que, apesar de todos seus medos e todas as esperanças secretas, ele não havia perdido todo seu juízo.
Nem suas mãos.
Nem a chance, mesmo ínfima, de um dia ser libertado.
E, se ele tivesse aquela chance, agora ele via o quanto ele precisava aproveitá-la, o quanto ele precisava se erguer e seguir em frente, levar adiante o que lhe fosse ofertado, plantar coisas, dar vida às coisas."
Como eu previ antes mesmo de começá-lo, esse livro me trouxe as respostas de que precisava. Não soluções, porque nada é tão simples. Mas ele disse exatamente o que eu precisava -- o que nós, todos, precisamos -- ouvir. Ele me mostra que a maior revolução é a vida. Ela continua insistindo em acontecer, as flores continuam insistindo em brotar, mesmo com tanta força para destruí-la. A vida é a força mais imparável do universo, e enquanto estivermos vivos, há espaço para florescer. E, mais ainda, em um mundo que faz tanto esforço para destruir a vida e pregar a morte, viver é o maior ato de rebeldia possível.
"Lá longe, uma crise se avizinhava, cada vez mais ameaçadora, como uma tempestade no horizonte, prestes a cair sobre todos os campos. A Terra ainda respirava. Desequilibrada, quente demais, com tempestades demais, mas respirava. Os botões, abrigados sob as pétalas, insistiam em se abrir nas roseiras."
Para finalizar, algumas obras que acho que conversam lindamente com esse livro.
Congresso Internacional do Medo
Carlos Drummond de Andrade
Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio, porque este não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.
Os ombros suportam o mundo
Carlos Drummond de Andrade
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
Ordem Natural das Coisas (Emicida ft. Mc Tha)
"O feijão germina no algodão, a vida sempre vence"
"Os poderosos podem matar uma, duas ou três rosas, mas jamais conseguirão deter a chegada da primavera."
Discurso do presidente Lula no sindicato dos metalúrgicos em São Bernardo (SP), logo antes de se entregar à polícia federal e passar 580 dias preso injustamente, por um processo que foi, posteriormente, anulado por ser considerado julgado por um juíz parcial.



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