Os funerais da mamãe grande, de Gabriel García Marquez

 

"[...] porque, amanhã, quarta-feira, virão os varredores e varrerão o lixo de seus funerais, por todos os séculos dos séculos."

    De vez em quando eu me deparo com um livro de escrita tão diferenciada, tão especial, tão marcante, que faz parecer que ele está contando minhas próprias memórias. Este é um livro desse tipo, e é um dos motivos pelos quais eu acredito que as obras do Gabo tomaram a América Latina pelo estômago. Sua narrativa única e sua forma de transformar a fantasia em fato são alguns dos seus melhores talentos, e são os motivos pelos quais seu Nobel de Literatura foi absolutamente merecido, e também são motivos pelos quais Cem anos de solidão continua sendo meu livro favorito, não importa quantos livros eu leia.
    Este livro é uma coletânea de contos que se passam em uma Macondo pré-Cem anos de solidão. As narrativas, que a princípio parecem não se conectarem, participam de um emaranhado de relações de várias naturezas. E, em todos os contos, opera uma força motriz muito significativa que é o poder. O poder, seja ele institucional, familiar, autoritário ou simbólico, domina as narrativas e pega de surpresa o leitor que acreditou estar apenas acompanhando a singela viagem de uma mãe com sua filha.

"Mas naquela manhã, com as recordações da noite anterior flutuando no charco de sua dor de cabeça, não encontrava por onde começar a viver."

    A grandeza de um livro como esse não é necessariamente revolucionária. Este não é um livro que vira a literatura de cabeça para baixo, que renova esteticamente. Para quem já conhece o Gabo, já leu Cem anos de solidão ou qualquer outro livro dele, pode ser que este seja mais um livro de seu estilo, um livro com uma familiaridade confortável. Mas o que sempre me faz voltar a Gabo parece intocável em sua escrita. Ele consegue transformar qualquer sequência descritiva ou narrativa em uma verdadeira história geracional, como daquelas que você ouve de alguma tia mais velha na casa da sua avó sobre a cidade pequena de onde elas vêm. É por isso que eu sinto como se estivesse lendo suas, minhas, nossas memórias, como se todos nós, de uma forma ou de outra, reconhecêssemos aqueles padrões, aqueles cenários, aqueles costumes em um mesmo álbum de fotografias.
    Fora os aspectos intimistas da sua literatura, há sempre um pano de fundo fortemente politizado. Ele não apenas escolheu construir narrativas com personagens que servem determinadas funções sociais a toa. O poder permeia todas as dinâmicas sociais dos contos, desde seus aspectos mais grandiloquentes, como a figura da Mamãe Grande em seu funeral, até aqueles que permeiam a vida íntima das pessoas sem que elas percebam, como a relação de uma mulher com seu marido. Todas as relações construídas nestes contos giram em torno do poder que exercemos um em relação ao outro, e os poderes aos quais estamos sujeitos o tempo inteiro. E mesmo se passando em uma pequena vila, em um tempo que parece ao mesmo tempo muito remoto e muito atual, todas essas relações ressoam como pratos em uma orquestra. Ninguém está imune de se ver ali representado, de uma forma ou de outra, e se deparar com os horrores monstruosos da vida social.

"Somente naquela madrugada, acordados pelos chocalhos do Viático, os habitantes de Macondo se convenceram de que a Mamãe Grande não só era mortal, como também estava morrendo."

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