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Mostrando postagens de 2024

Emma, de Jane Austen

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  "I suppose there may be a hundred different ways of being in love."      Amantes de Jane Austen, espero que não me julguem pelo que vou dizer. Eu odiei esse livro.     Li Jane Austen pela primeira vez há alguns anos, ainda na pandemia. Comecei por Orgulho e Preconceito , amei, decidi ler mais, li Persuasão, Razão e Sensibilidade  e, agora Emma . Desde Persuasão , comecei a sentir que não entendia muito bem o porquê de as pessoas amarem tanto. O que não significa que não entendo a importância dos seus livros para a literatura, em especial para entender o espaço minúsculo e ínfimo que foi dado às mulheres para fazê-la. É evidente que seus livros têm o diferencial na maneira de construir suas personagens femininas, que são cheias de personalidade, autênticas, que não aceitam se casar por interesses, etc., e que a forma de descrever a sociedade da época é muito crítica e ironiza os pensamentos burgueses, marcados por interesses, relações falsas e exagera...

Intermezzo, de Sally Rooney

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  "No entanto, aceitando a premissa, permitindo que a vida não signifique nada por um instante, não é simplesmente uma sensação boa  estar nos braços dessa pessoa?" Um interlúdio é uma parte de uma composição musical que tem o objetivo de separar um trecho musical de outro. É como uma transição gradual entre aquilo que já passou e aquilo que está por vir. Ninguém vai assistir a uma orquestra procurando pelo interlúdio. Mas ele está lá, sempre. Ele tece a narrativa. No livro mais recente de Sally Rooney, Peter e Ivan Koubek, dois irmãos completamente diferentes vivem seus próprios interlúdios após a morte do pai. Peter é um advogado de 32 anos, arrogante e metido à besta, que se sente superior a todos à sua volta, mas ao mesmo tempo se odeia mais do que odeia qualquer outra pessoa. Enquanto isso, Ivan, de 22 anos, acaba de sair da faculdade e é um competidor de xadrez de alta classificação. Ele, ao contrário de Peter, é socialmente estranho , se sente desconfortável em muitas ...

Nós matamos o cão tinhoso, de Luís Bernardo Honwana

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  "Mas não me olhes como se eu tivesse culpa, Cão Tinhoso! Desculpa, mas eu tenho medo dos teus olhos..." A coletânea de contos de Honwana é uma obra bastante representativa da história de Moçambique. Após 400 anos de colonização, não é possível fugir dos efeitos de toda a violência, segregação e desigualdade que isso constroi na sociedade. E é importante entender que Honwana foi militante do movimento FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique), e que este livro foi publicado durante sua prisão política. Então, é evidente que a obra não tenta fugir desses elementos, muito pelo contrário: eles são elementos absolutamente constitutivos da trama. Mas, ele não se encerra nisso. É muito mais do que isso. Sempre que lemos literaturas africanas, ou de lugares historicamente marcados por opressão, invasão e colonialismo, esperamos que a obra seja um retrato disso, seja uma obra que nos ensine  sobre a história dramática deste país. Não se oferece o espaço para literaturas africanas...

Ao farol, de Virginia Woolf

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  "Pode ser que você acorde e descubra que o sol está brilhando e os pássaros estão cantando." Ler Virginia Woolf é sempre um desafio. É uma experiência de desprendimento com aquilo que sempre nos preocupamos em primeiro lugar quando lemos qualquer livro, o enredo. E já adianto aqui que o enredo é secundário, no mínimo, nessa história (e arrisco dizer que em qualquer livro da Virginia). O que realmente é brilhante na obra dela são as reflexões, os pensamentos dos personagens,  a  forma como os sentimentos deles transbordam suas mentes e encharcam o papel. O enredo pouco importa nesse processo, ele é pano de fundo dessa pintura. Inclusive, gosto de pensar nesse livro como uma pintura impressionista. O tipo de pintura que, de longe, é coesa e interpretável, você é capaz de enxergar um farol, uma família com 8 filhos, amizades entre sujeitos  ricos e suas conversas que conduzem a história. Assim como você é capaz de enxergar, de longe, um farol, uma praia, barcos e uma ...

Hot Sul, de Laura Restrepo

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"(...) mientras estuve en libertad, mi meta era borrarme lo latino como si fuera una mancha, y desde que estoy presa me ando volviendo una fundamentalista de la latinidad." Comecei a ler Hot Sul em agosto, leitura obrigatória de uma disciplina do mestrado sobre feminismos transnacionais. Digo isso porque talvez minhas opiniões sejam contaminadas pelo peso da obrigatoriedade da leitura. É extremamente importante destacar aqui: esta leitura não foi por prazer. O que não necessariamente implica que não tenha sido prazerosa em momento algum, pois foi, às vezes. Mas não sei se teria sido uma leitura que eu manteria até o final se não fosse pela disciplina. Hot Sul  é uma narrativa complexa, longa e cheia de reviravoltas e mudanças de perspectiva, cenário e narradores. Acompanhamos três personagens principais, narradores parciais e tendenciosos contando suas histórias de vida que aos poucos se vão emaranhando. Maria Paz, uma mulher colombiana (como a autora) que está na prisão desd...

Babel, de R. F. Kuang

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"But that's the great contradiction of colonialism. (...) It's built to destroy that which it prizes most" Babel , de R. F. Kuang foi, talvez, o meu monte Everest de 2024. Não porque seja uma leitura difícil, ou densa demais. Na verdade, a leitura é bem intuitiva, interessante e cativante. Mas porque o livro tem 544 páginas e eu sou professora e não tenho tempo de ficar lendo como eu gostaria rs. A verdade é que, se dependesse só de mim, da minha vontade e do meu gosto por esse livro, poderia ser que eu lesse esse livro em poucas semanas. Mas eu terminei, finalmente, o livro. Me custou em torno de 2 meses, aproximadamente 73 dias, muitas e muitas pausas em que eu tive que ler outras coisas (por trabalho, pelo mestrado etc.) e muita força de vontade. E valeu cada esforço, cada dia em que eu atrasei uma leiturinha de obrigação para ler este livro, cada post-it usado para destacar trechos (e foram MUITOS), cada lágrima derrubada, e cada dia que eu passei pensando que eu ...