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Mostrando postagens de agosto, 2025

No seu pescoço, de Chimamanda Ngozi Adichie

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  "Não vou à igreja; parei de ir depois da primeira visita de Ebere, porque não tinha mais incertezas. É nossa desconfiança com a vida após a morte que nos leva à religião. Por isso, aos domingos, eu me sento na varanda, observo os abutres pisando no meu telhado e imagino que eles estão me espiando, intrigados."     A literatura de Chimamanda Adichie nunca passa por mim sem deixar seus rastros. Da primeira vez que li um livro dela, Americanah , fiquei tão impactada por seu jeito quase artesanal de fazer literatura que até hoje encontro seus vestígios em outras experiências literárias. Quando menos espero, em livros de tantos outros temas, enredos e formas de narração, encontro ali aquela memória literária de quando, aos 20 anos, tive o prazer de conhecer sua escrita.     No seu pescoço  é uma coletânea de 12 contos que abordam assuntos diversos, sempre por uma perspectiva de personagens nigerianos tomados por algum evento que os faz encarar suas próprias hi...

Persépolis, de Marjane Satrapi

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  "Claro que, mesmo com todas essas ameaças, as festas continuavam. Alguns diziam: 'Para poder suportar psicologicamente...', e outros completavam: 'Sem festa, pode encomendar nossos caixões'."     Persépolis é o nome que se deu à Cidade Persa ainda na antiguidade. Hoje, as ruínas desse lugar são consideradas patrimônio mundial pela UNESCO e simbolizam um poderoso registro histórico da antiga Pérsia, atual Irã. Mas a história de Marjane Satrapi acontece em anos muito mais recentes com a guerra entre Irã e Iraque, iniciada nos anos 1980, nesse mesmo cenário de ruínas e conflitos.     Através de uma belíssima história em quadrinhos, Marjane relata como sua vida mudou quando um governo autoritário teocrático tomou conta de seu país, Irã, e passou a ditar exatamente como as pessoas deveriam viver suas vidas. As mulheres, que até então se vestiam como queriam, se viram obrigadas a usarem véus e até chador  , uma roupa que cobre completamente seu corpo e deixa vi...

As Meninas, de Lygia Fagundes Telles

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  "Para que eu seja assim inteira (essencial e essência) é preciso que não esteja em outro lugar senão em mim."     As Meninas  é um sufoco. Quando li pela primeira vez era pandemia, li com minhas amigas em um clube do livro e precisei da primeira reunião para entender que as narradoras eram três pessoas diferentes. Agora, nessa releitura, vejo o quanto esse livro me marcou e, ao mesmo tempo, o quanto perdi dele na primeira vez. Percebo, agora, que esse livro é um livro de estante, um para ter guardado por toda sua vida e para ser revisitado de tempos em tempos. É um livro para ir saboreando com os anos, degustando, decantando. Parece que, à medida em que eu amadureço, o livro amadurece junto.     Lygia Fagundes Telles é uma joia rara que temos o prazer de ler em sua língua original. Em um país que tem Machado de Assis, Jorge Amado e Clarice Lispector, parece inacreditável que tenhamos ganhado em tantas loterias literárias a ponto de termos também a Lygia. ...