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Mostrando postagens de abril, 2025

Memórias de Martha, de Julia Lopes de Almeida

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  "Há flores nos pântanos, e refletem-se muitas vezes na lama os raios das estrelas." [Essa resenha contém SPOILERS]     Ano passado, em plena movimentação de pré-vestibular, os preparativos a todo vapor, a Fuvest lançou a sua lista de leituras obrigatórias para o vestibular de 2026¹ e, para a surpresa de todos, revelou um feito inédito: uma lista composta apenas de mulheres. Esse feito foi completamente inovador e nos mostrou uma comprovação daquilo que nós, feministas, sabemos há muito tempo: as mulheres sempre foram plenamente capazes de fazer parte da produção intelectual, artística e literária, e sempre o fizeram, mesmo que às escondidas. O que aconteceu, ao longo do cruel curso da história, foi o apagamento de suas inúmeras contribuições. O vestibular da Fuvest, em um movimento de resgate histórico, dá um espaço de notoriedade àquelas apagadas pela história. Em listas que, por anos, foram compostas de apenas homens, homens e mais homens, vemos uma luz no que diz res...

A Vegetariana, de Han Kang

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  "'Você tem cheiro.' 'Cheiro de quê?' 'Carne. Seu corpo cheira a carne.' Dei uma sonora gargalhada. 'Você não viu que acabei de sair do banho? De onde você pode sentir esse cheiro em mim?' Sua resposta foi cortante. 'De todos os seus poros.'"     O segundo livro ganhador de Prêmio Nobel de Literatura que eu li esse ano, primeiro Nobel da Coréia do Sul. Li consideravelmente depois de sua fama maior, que acredito que tenha sido em torno de 2020 (foi quando ouvi falar dele pela primeira vez através de minha amiga Aline). Também li depois de minha madrinha, que foi quem me presenteou o livro em 2021 (eu tardo, mas não falho). Também li depois de minha mãe, que leu no começo desse ano, assim que foi laureado, e depois do meu irmão, que leu com os amigos em um clube do livro. Ou seja, minha sensação é de que eu fui a última pessoa do mundo a ler esse livro. E que demora...     A história dele não é exatamente o seu ponto mais especial, nem t...

Casa Velha, de Machado de Assis

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  "Há grande diferença social entre um e outro, mas a natureza, assim como a sociedade a corrige, também às vezes corrige a sociedade."     Machado em sua fase romântica pode parecer ingênuo, com uma escrita simples e um enredo superficialmente tradicional. À primeira vista, Casa Velha  não passa de uma novela romântica sobre um amor impossível. E realmente é isso que o livro é, mas existe uma incoerência cósmica em ler Machado de Assis e conformar-se apenas com a pura superfície do texto.     Essa obra foi publicada em uma revista feminina daquelas bem românticas que traziam em uma seção um molde para um vestido, em outra uma receita de gelatina mosaico com creme de leite e em outra ainda um romance que se atualizava semanalmente com novos capítulos. Nos anos de 1885 a 1886, posteriormente ao lançamento de Memórias Póstumas de Brás Cubas (o que nos levaria a pensar que seria da fase realista do Machado), ele publicou esta pequena novela em uma dessas revis...