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Mostrando postagens de outubro, 2024

Nós matamos o cão tinhoso, de Luís Bernardo Honwana

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  "Mas não me olhes como se eu tivesse culpa, Cão Tinhoso! Desculpa, mas eu tenho medo dos teus olhos..." A coletânea de contos de Honwana é uma obra bastante representativa da história de Moçambique. Após 400 anos de colonização, não é possível fugir dos efeitos de toda a violência, segregação e desigualdade que isso constroi na sociedade. E é importante entender que Honwana foi militante do movimento FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique), e que este livro foi publicado durante sua prisão política. Então, é evidente que a obra não tenta fugir desses elementos, muito pelo contrário: eles são elementos absolutamente constitutivos da trama. Mas, ele não se encerra nisso. É muito mais do que isso. Sempre que lemos literaturas africanas, ou de lugares historicamente marcados por opressão, invasão e colonialismo, esperamos que a obra seja um retrato disso, seja uma obra que nos ensine  sobre a história dramática deste país. Não se oferece o espaço para literaturas africanas...

Ao farol, de Virginia Woolf

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  "Pode ser que você acorde e descubra que o sol está brilhando e os pássaros estão cantando." Ler Virginia Woolf é sempre um desafio. É uma experiência de desprendimento com aquilo que sempre nos preocupamos em primeiro lugar quando lemos qualquer livro, o enredo. E já adianto aqui que o enredo é secundário, no mínimo, nessa história (e arrisco dizer que em qualquer livro da Virginia). O que realmente é brilhante na obra dela são as reflexões, os pensamentos dos personagens,  a  forma como os sentimentos deles transbordam suas mentes e encharcam o papel. O enredo pouco importa nesse processo, ele é pano de fundo dessa pintura. Inclusive, gosto de pensar nesse livro como uma pintura impressionista. O tipo de pintura que, de longe, é coesa e interpretável, você é capaz de enxergar um farol, uma família com 8 filhos, amizades entre sujeitos  ricos e suas conversas que conduzem a história. Assim como você é capaz de enxergar, de longe, um farol, uma praia, barcos e uma ...

Hot Sul, de Laura Restrepo

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"(...) mientras estuve en libertad, mi meta era borrarme lo latino como si fuera una mancha, y desde que estoy presa me ando volviendo una fundamentalista de la latinidad." Comecei a ler Hot Sul em agosto, leitura obrigatória de uma disciplina do mestrado sobre feminismos transnacionais. Digo isso porque talvez minhas opiniões sejam contaminadas pelo peso da obrigatoriedade da leitura. É extremamente importante destacar aqui: esta leitura não foi por prazer. O que não necessariamente implica que não tenha sido prazerosa em momento algum, pois foi, às vezes. Mas não sei se teria sido uma leitura que eu manteria até o final se não fosse pela disciplina. Hot Sul  é uma narrativa complexa, longa e cheia de reviravoltas e mudanças de perspectiva, cenário e narradores. Acompanhamos três personagens principais, narradores parciais e tendenciosos contando suas histórias de vida que aos poucos se vão emaranhando. Maria Paz, uma mulher colombiana (como a autora) que está na prisão desd...